QUAL DEMOCRACIA?

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Política        

Nei Duclós

O conceito de democracia está a reboque dos consensos forjados. O objetivo é impor os cem por cento de aprovação para quem usufrui do topo da pirâmide. E ter o cuidado de chamar de ditadura a posição de quem se insurge contra certezas tornadas, subitamente, eternas. Para que essa mágica funcione, é preciso instrumentar a cartola e providenciar os coelhos. Pesquisa de opinião, por exemplo, substitui perfeitamente o resultado da urna. Pela lógica do espetáculo circense, não se deve criticar os índices pluviométricos de aceitação ou recusa sobre esse ou aquele candidato.

Fala-se tanto em voto de cabresto como se fosse algo pertencente ao passado. Mas o voto útil, por exemplo, mais explícito no segundo turno, é o mesmo velho hábito das eleições antigas, só que atualizado por meio de argumentos, digamos, científicos. O engessamento da opinião, que existe a partir de conglomerados de pensamentos prontos para o uso (mas embalados num charme pseudofilosofante), é a grande tragédia do atual estágio político brasileiro. Reflete a imposição de proibições, mascaradas sob a ótica dos nichos.

Se você não for identificado como especialista, não pode debater política ou economia, pois esses são outros departamentos. Fica mais fácil. Os argumentos navegam em vasos comunicantes e todos ficam satisfeitos. Se você é cidadão, só fala de baixo para cima, no máximo como consumidor consciente e jamais como uma pessoa política completa, capaz de peitar estadistas. Cada um deve conhecer o seu lugar, como determinava a máxima racista. Expropria-se, assim, a grandeza dos eleitores, representados por carregadores de bandeiras a soldo dos candidatos.

A contundência do verbo decididamente de oposição migrou da política (que prefere a baixaria pura e simples) e refugia-se nas rodas improvisadas pela população nos lugares onde ainda existem calçadas. Erma de um ambiente adequado e de insumos teóricos que só a leitura e a reflexão podem proporcionar, a cultura empírica é hoje o último reduto da imaginação e da liberdade política. Estas, foram erradicadas dos níveis estratosféricos onde o debate sobre “projetos” em época eleitoral costuma acabar em CPIs.

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