RUAS DO ENCONTRO

dez 11th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas        


Nei Duclós

Eternidade é o tempo que você espera para abrir o farol, me disse certa vez um amigo. O conceito se estende a todas as ações do dia. No sacolão, quem está atrás deposita suas compras na balança antes que eu consiga contar o troco. Na hora de recolher as frutas, confusão: o que estava na balança quase é aderido ao meu acervo. O sujeito é bruto e reclama, pegando de volta o que lhe pareceu ter sido surrupiado. Quando tento argumentar, ele nem me olha. Sou suspeito. A certeza de que é um modelo de honestidade (sua pressa e atropelo são justos) e eu, um biltre (o distraído que quase recolhe o que não lhe pertencia) se expressa por gestos e caras. Saio pra evitar conflito.

Civilização é a tolerância em relação às desvantagens. Se a pessoa estiver manobrando para estacionar, é lógico que ela precisa de compreensão ao redor. Não dispõe de espaço para ir em frente, está dando ré ou cruzando em diagonal, tentando acertar entre o balizamento, quase invisível, do chão. Se alguém atrás decide ser impaciente, surge o impasse. Esperar que o contemporâneo ocupe legalmente sua vaga, mesmo que isso vá prejudicar a pressa de quem vem depois ou até mesmo sua possibilidade de achar um lugar disponível, é sinal de que temos chances de sobreviver.

Os veículos são caricaturas de quem está dirigindo. O velho, a perua, o garotão, o bronco na posse do volante são personagens criados pela intolerância, que xinga de passagem. O trânsito hoje é o único lugar permanente de convívio, afora os shows de rock e as platéias das inúmeras tragédias. Assistir um incêndio, levantar os braços para alguém que assassina notas musicais e fazer ultrapassagens são alguns dos poucos gestos coletivos compartilhados. O resto é a solidão televisiva ou internética. Como não há convívio real, substitui-se a civilização dos encontros pela barbaridade dos comentários desaforados. O xingamento é o cumprimento pelo avesso na urbanidade sem lei.

Existe, claro, os grupos nas escolas, trilhas, férias, viagens, cursos, elevadores, shoppings, corredores. Nos sítios de relacionamento, a imagem pública de pessoas identificadas por idade ou hobbies, posa para o celular sempre à mão. Os sorrisos proliferam, mas sinto que falta alguma coisa nessa exposição coletiva. A amizade explícita e celebrada em excesso, os abraços e beijos de todos os gêneros, os olhinhos fechados de felicidade, tudo isso faz parte de um acervo que contradiz a quantidade enorme de eventos trágicos em ambientes familiares ou corporativos.

O matemático brasileiro que fazia pós-graduação nos Estados Unidos, e foi colhido logo por quem, por um vietnamita armado que tinha dificuldades em aprender e trabalhar, é o exemplo típico de confrontos cada vez mais freqüentes. Parece haver um esforço para a criação de soluções individuais, fruto da vontade que todos têm de dar certo na vida, de fazer acontecer, de ser feliz. Mas não parece haver um esforço para resolver problemas coletivamente. As nações não oferecem mais a segurança para uma vida plena. Os sistemas políticos acabaram tomando caminhos perversos, desamparando a cidadania. O indivíduo se recolhe nos estudos, por exemplo, e é atingido pela tara, a frustração e a vingança de um outro que não consegue uma saída.

Nesse vácuo, surge o aconselhamento dito correto. Como as escolas são arena de massacres, as empresas são alvos de ex-funcionários irados, ou os parques de diversões armadilhas ditadas pela ganância e a falta de escrúpulos, então sempre resta uma igreja na esquina, uma academia de ginástica, um curso. Há vagas para mestres de todos os tipos, já que as platéias se reúnem espontaneamente, tentando escapar do pesadelo.

A esperança é que o exercício libertário da individualidade responsável se una a experiências semelhantes e encontrem canais diferentes de conciliação. Existe tecnologia, riquezas, conhecimento e vocações suficientes para que a amizade prolifere sem máscaras. Falta talvez vivência, vontade, fé no próximo. Mas isso a humanidade dá um jeito. Basta esperar que seu semelhante estacione. Ou deixar que o outro tenha prioridade na rua estreita. Ou então, dar o braço para determinada senhora cruzar a rua e atingir o outro lado com um sorriso, daqueles que duram uma eternidade.

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