TINTIN: UMA ANTOLOGIA DO CINEMA

fev 26th, 2012 | Por | Categoria: Cinema        

Nei Duclós

Para justificar o título, vou citar as cenas de filmes clássicos incluídas em As Aventuras de Tintin (2011), de Steven Spielberg, para ninguém achar que é exagero. O pequeno avião que tenta bater nas pessoas, de Intriga Internacional de Hitchcock, a dupla de aventureiros do deserto que chega na cidade do oriente à beira mar, de Lawrence da Arabia, a perseguição por cima dos telhados do amigo seqüestrado, de O garoto, de Chaplin, a busca de algo precioso no mercado de pulgas, como em Charada, de Stanley Donen, as lutas de capa e espada protagonizadas desde Douglas Fairbanks até Stewart Granger, a alucinada corrida atrás dos facínoras de Em Busca da Arca Perdida , do próprio Spielberg, a busca do tesouro por meio de uma charada decifrada pelo palimpsesto (o texto oculto no pergaminho que só se revela no fogo), de tantos filmes baseados no conto famoso de Edgard Alan Poe, o Crime da Rua Morgue. Está de bom tamanho? Falta o principal.

Spielberg nasceu em 1948 e portanto posso dizer, já que faço parte exatamente da mesma geração, como é que se manifestava nossa paixão pelo cinema. Primeiro, era uma obrigação. Mas não vai jogar futebol? perguntavam escandalizados. Não, eu respondia, eu TENHO que ir ao cinema. E cinema era domingo, pois o resto da semana era dedicado aos estudos. Qual o cardápio? Começavam às dez da manhã com desenhos de Tom e Jerry e faroestes de Roy Rogers, Gene Autry e Rocky Lane. À tarde, era a vez de um filme de aventura, pirata normalmente, e uma comédia, quase obrigatoriamente uma chanchada brasileira, mas havia também muito Gordo e Magro, Fernandel (comediante francês), Cantinflas, etc. Era uma sessão dupla, muito valorizada.

Às quatro da tarde vinha o filé da programação, os grandes faroestes, com John Wayne, Victor Macture, Henry Fonda. Havia também os de guerra e os épicos bíblicos de Cecil B de Mille, mas isso era mais para a sessão das seis, que também freqüentávamos, e a das oito, só dos adultos. Mas o que quero destacar é um detalhe importante na sessão do início da tarde, às 13 horas, quando, ante dos filmes, passavam os seriados. Sim, seriados de ficção e aventura, de Capitão Marvel entre outros. Cada domingo havia um episódio, que durava meia hora, e acabava com grande perigo para o mocinho, salvo na sessão da semana seguinte. Pois bem, Tintin é a soma de toda essa programação. É seriado (promete continuação), é pirata, aventura, ação, comédia, desenho etc.

Qual a diferença entre essa soma/síntese da Sétima Arte costurada num trabalho primoroso de animação, dos outros, que tentam ser encantadores com foco na História do cinema e que não funcionam, como acontece com Hugo, de Scorsese? É porque em Spielberg o amor pelo cinema é legítimo e está fundado em quilômetros de sessões e não na cerebração apenas. Gostamos dos filmes e pensamos conforme o nosso gosto. Não há defasagem entre amor e raciocínio, muito menos mistificação. Nós, a turma do Spielberg, que podemos incluir todos nossos camaradas da fronteira enlouquecidos por cinema, não fomos essencialmente “especialistas”. Tomamos conhecimento da vanguarda e de grandes outros clássicos. Mas éramos apenas onívoros. Gostávamos de tudo. Nossa mitologia é mais ampla.

E tudo é o que é Tintin, visto por Spielberg, inclusive desenho. No início do filme, há um toque magistral de metalinguagem: um desenhista pinta na praça um rosto do Tintin do filme e o que aparece no quadro? O personagem desenhado de Hergé. Acho que captei a sua essência diz o pintor. Genial. O “verdadeiro” Tintin é o que vemos na animação (pelo menos essa é a versão de Spielberg). Que, por sua vez, é representado pelo outro Tintin, o que nós conhecemos das histórias em quadrinhos. Todos sabem que o “verdadeiro” Tintin é esse desenhado e não o que existe na animação. Mas quem pode com o cinema, a arte sempre voltada para si mesma?

Se gostei? Ainda pergunta? Saltei da cadeira, cara. Fui em busca do tesouro de Hackham o Terrível e lutei junto com o capitão Haddock. Vibrei com Milu e o repórter que faz coleções de antigas máquinas de escrever em seu apartamento. O repórter que todos sonham ser, que vive suas aventuras. No fundo, o repórter é o criador que segue as pegadas do seu genial personagem. Nesse rastro seguimos decifrando pergaminhos, nós os loucos por cinema. Por isso digo: Spielberg sabe o que faz, acerta sempre. É o que temos de melhor.

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