News
A PERGUNTA ENGATILHADA
Published: Sep 18, 2007 - 05:07 PM
Nei Duclós
Pânico é a palavra certa
na hora da entrevista. Qual pergunta deve ser feita? Um roteiro prévio
é obrigatório? Como prestar atenção ao que a fonte diz e ao mesmo tempo
pensar na sua próxima intervenção como repórter? Os erros mais comuns
são questionar de maneira genérica ou repetir as frases ouvidas para
gerar uma desnecessária ênfase na conversa.
COMPOSIÇÃO
CRIATIVA - A pergunta é um animal ferido, que está em posição de
tocaia, mas não oferece perigo, a não ser para quem a enuncia. A
entrevista mal feita é hoje a principal queixa das fontes. Perguntar é
uma declaração de insuficiência, é precariedade pura. O recado de uma
pergunta é: “eu não sei e preciso saber o que você sabe para eu poder
trabalhar”. Não há posição pior. A não ser que seja marketing
disfarçado de notícia. Aí você é tratado como um rei e recebe todo tipo
de tapinha nas costas, além de uns dois ou três “esta é uma boa
pergunta”.
Para evitar desperdício, faça uma composição criativa: pesquise
previamente seu entrevistado (consulte o oráculo Google, leia
reportagens ou artigos - livros, quando houver - ou pergunte para quem
sabe sobre o personagem a ser enfocado), faça um roteiro das perguntas
baseadas em necessidades de leitura, ou seja, em coisas que ainda não
foram publicadas ou estão mal explicadas.
Preparado, quando chegar a hora, solte-se. Obedeça ao princípio do
máximo da concentração com o máximo do relaxamento. Exercite-se
articulando previamente a arquitetura da sua pergunta – que não seja
rebuscada nem simplória, e coloque ambos, jornalista e fonte, nos seus
devidos lugares.
O jornalista é aquele que nada sabe, por isso vive perguntando – o
que não faz dele um ignorante, mas um profissional da busca da
informação. E a fonte é aquele que quer dizer o que bem entende e
precisa ser capturado no pulo – se for de boa fé, vai gostar de ser
estocado em coisas que ele nem tinha pensado antes; mas se for o
contrário, pode rosnar.
ROLO COLETIVO - A
entrevista coletiva cruza uma fase muito ruim. A apelação, a
superficialidade, a pressa e a redundância atropelam o evento, o que
acabou por provocar o domínio absoluto dos promotores sobre os
repórteres. A cena mais tocante e triste da mídia são os microfones
lado a lado em frente a uma grande autoridade, como se fossem bichinhos
de estimação subservientes à Voz do Dono. Também não gosto de microfone
na garganta de quem tem o que dizer ou é obrigado a falar.
Acho bastante civilizado o esquema americano, em que o presidente
aponta um dos jornalistas, escolhendo assim o interlocutor da vez. E o
que é mais impressionante: os outros respeitam essa ordem natural das
coisas. Aqui, quando não há submissão, há prepotência: os repórteres se
atiram sobre as pessoas e uns contra os outros, alimentando assim os
preconceitos contra a profissão, largamente explorados pelas novelas de
televisão (jornalista e empresário são os vilões preferidos das
novelas).
Quando há coletivas mais tranqüilas, é comum o silêncio geral, o
medo de arriscar. Numa situação dessas, pense na sua pergunta antes,
formule-a com princípio, meio e fim (se for improvisar, pode falhar) e
aguarde esse momento de silêncio geral e dispare. Será bem sucedido.

