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O NOME DA INFÂNCIA É VERÃO
Published: Dec 04, 2007 - 10:34 AM
Nei Duclós
Naquele tempo, havia paz no Brasil soberano. O calorão tomava conta
das tardes à espera da carrocinha do picolé e os parentes vinham de
longe para encher a casa. Os pais nos olhavam de maneira diferente,
pois pegavam carona nos comentários dos que chegavam e que estavam
longe das rotinas do ano enfim entregue aos braços do destino.
As noites tinham todas as estrelas e reproduzíamos no chão, com
buscapés, os cometas que às vezes cruzavam o céu. Eram estrelas
cadentes, mas nós gostávamos de acreditar que eram cometas. A grande
eletrola tocava Liberace interpretando clássicos, música mexicana da
boa, bem gritada por Miguel Aceves Mejia e música orquestrada com todas
as canções maravilhosas que se perderam no espaço.
O verão era a vez da infância, que dominava as árvores, as praças e
os quintais. Pés no chão, bola de meia ou de couro e roupa de linho
branco para celebrar os domingos.
GUARANÁ - A casa virava um acampamento. Dormíamos em colchões
dispostos como num quartel, sob chuva de travesseiros. Os quartos
perdiam a identidade e a copa se enchia de muitas sessões de almoço e
jantar. Falava-se alto e quando chegava a noite de Natal comíamos
salada de fruta com guaraná champagne, gelatina recheada com doce de
pêssego e merengue em cima (a sobremesa predileta de minha mãe), taças
de vinho e quando ficávamos mais taludos, uns tragos no uísque
Cavalinho Branco (vulgo White Horse) importado da Argentina, servidos
em copos de cristal com finas marcas vermelhas das doses sucessivas.
A Lua gigantesca levantava-se no final da rua Bento Martins e subia
lenta e pesada, até ficar do tamanho de uma moeda de dez centavos ou um
cruzeiro, não lembro bem. As manchas da Lua formavam o mapa do Brasil
virado de ponta cabeça. Quando me falaram mais tarde que elas lembravam
o dragão atacando São Jorge, achei um absurdo. A lua cheia do verão,
quando estava no zênite, era a imagem da moeda que regia o país que nos
criou.
Nossa casa era a última da rua asfaltada. Depois de nós, o povaréu,
nosso amigo. Lutávamos, jogávamos, corríamos. Os calções largos, as
cabeças peladas (pois criança não podia deixar cabelo crescer, era a
marca da submissão da infância). Mas éramos livres com nossos cocos
raspados e voltávamos tarde da noite, levando bronca porque a janta
esfriava e meu pai não permitia que as refeições fossem feitas sem que
todos estivessem juntos. Herança da formação militar, a hora do rancho
era sagrada. Tomar banho, colocar a camisa, se pentear, para só então
sentar na grande mesa onde se compartilhava a comida generosa.
ALGAZARRA - Não lembro dos meus pesadelos nas noites de verão.
Talvez nunca os tenha tido. Acordava com os pássaros fazendo algazarra
no cinamomo do pátio e havia sempre um convite para um programa
imperdível. Descer até o rio e catar pedras redondas, pescar as piavas
que assobiavam na linha ao serem fisgadas, ou mesmo acumular lambaris
que mais tarde eram escamados, limpos e fritos em frigideira quente.
Passeios até a Gruta, puxando carrinho com os víveres para passar o
dia. Caminho puxado que pegava cinco quilômetros de estrada e guardava
lá o banho proibido, porque era perigoso, segundo minha mãe, que tinha
medo de água a céu aberto, fonte de tantas aflições naquela rede
hidrográfica que engoliu pescadores, maridos, filhos e todos que se
aventurasse não só em corredeiras, como em sangas e águas paradas de
lagoas lodosas.
Na Gruta comíamos bolacha Maria com goiabada e refrigerante.
Pescávamos alguma coisa e voltávamos já no escurecer. Está escurando,
dizia eu, medroso diante do mistério da noite e seu breu eterno. O
verão só fazia sentido com um monte de gente. Se alguém viajasse, era
tido como traidor e muito mal recebido na volta. Eu mesmo quando fiquei
fora um janeirão inteiro para conhecer o mar, ao retornar fui espancado
para aprender o que era bom para a tosse.
As brigas se sucediam sem parar. Socos, pedradas, rasteiras, choros,
gritos e macheza sem fim. Terra de meninos ingratos, duros, violentos,
que se reuniam em bandos e se enfrentavam para disputar os territórios
violados. Mas não havia transgressão. Os bandidos ficavam em outro
lugar, longe, e eram recolhidos pelo jipe da polícia que, diziam,
enterrava gente viva. Nasceu aí meu medo de policial. Ficava imaginando
a terra descendo sobre meus gritos, o socorro que não vinha e aquelas
fardas que faziam o pior dos serviços. Esse terror tornou-se real mais
tarde, quando 1964 acabou com o país.
FAÍSCAS - Desse pesadelo ainda não acordamos. Aguardo a volta do
Brasil, que será recebido no portal por minha mãe, sempre tão carinhosa
na sua inteligência falante e prudente. O país será eu, filho pródigo
de volta à bonança da memória, a espargir pequenas faíscas de estrelas
na calçada tomada pela infância. A Lua também me receberá como a um
filho. E estaremos ainda todos vivos, libertos da fúria que nos cercou
e que fez uma guerra inútil por todo esse tempo. Porque o Brasil é o
que foi criado pelas gerações que doaram seus corpos insubmissos à
terra que tornou-se uma nação eterna.
Volta, Brasil, junto com as crianças que nascem agora. Devolve essa
alegria ao homem feito, que se aproxima do norte da própria vida
escutando ainda as canções que jamais morrerão.

