Focas
maio 13th, 2005 | Por Nei Duclós | Categoria: Redação sem MáscaraNei Duclós
Sempre tive queda para professor e cheguei a orientar alguns estreantes. Um deles recebeu os seguintes toques:
Acabei a leitura das suas matérias e notei algumas coisas que vou discriminar por ítens:
– Suas matérias possuem um bom nível de informações, o que seus editores devem agradecer aos céus, pois assim podem trabalhar em paz, sem nunca ficarem na mão, nas longas madrugadas de fechamento.
– O que falta na maioria das matérias é aquilo que a edição final, na revista, procura resolver (nem sempre consegue fazer isso corretamente, mas normalmente os editores estão no rumo certo. )
– O principal problema é que você ainda está na fase do relatório, ou seja, empilha informações sem achar uma idéia central que costure o texto. Uma fila de dados não é um texto.
– Na estruturação dos seus textos você comete, quase sempre, o pecado de usar sempre as mesmas soluções: “onde” e “além” não costuram orações. As frases costuradas desse jeito ficam repetitivas.
– Outro problema é a quebra das frases, por meio de orações que não combinam entre si. Esses exemplos estão assinalados a caneta.
– É preciso evitar repetições de palavras na mesma frase, especialmente a palavra “que”. Quanto menos “que” voce usar, melhor o texto. Exercício: escreva um texto de vinte linhas sem usar o “que”.
– Há um clima “oba-oba” nos textos. Não use o álibi de que você precisa elogiar, por isso usa tantos adjetivos e frases deslumbradas. Você pode ser favorável sem ser superficial.
– Cuidado com as crase: você usa “à” quatro mãos. Nunca esqueça do “a” preposição. Abrace essa idéia: existe o “a” artigo” e o “a” preposição. Se você se acostumar que o “a” pode ser preposição, você não erra crase. É um truque que parece bobo, mas funciona. Se você admite a preposição no “a”, você admite a contração com o artigo “a”. Não me leve a mal: aparentemente é uma obviedade, mas ajuda a automatizar o uso da crase de maneira correta.
– Trate o lead com carinho. Ele é que te sustenta. Você viverá sempre de leads. Nunca comece uma reportagem com “A Divisão de Promoção Social (DPS) do Sesi”. O leitor já boceja. Um dia o atendimento preferencial ao cliente (o leitor) chegará ao jornalismo. Você, então, estará preparado .
Coloquei a caneta e repito aqui: “Penetra surdamente no reino das palavras” (Drummond). Surdamente quer dizer: elimine seu diálogo interno, escute o seu texto. Se ele soa mal, está errado. “Paralelamente alavancar a interiorização”, por exemplo, é de matar. Escreva de ouvido. Esse é o segredo.