TEXTO É MÚSICA

out 26th, 2010 | Por | Categoria: Redação sem Máscara        

Nei Duclós

Escrever não é ter o que dizer, é fazer música. Não é convidar à reflexão, recordar, exibir malabarismo ou mágica. Falo de melodia, harmonia, arranjos, improvisos, e não a barbárie do baticum, hip hop, rap ou esse pop esganiçado, espichado e interminável que nos torturam em supermercados. Escrever pode ser barulho, mas não ruído. Há diferença: barulho tem tambor, pratos, metais; ruído é porta que range, vibrato de serra elétrica, distorção vocal fanha.

Um texto obedece a uma partitura e conecta com a transcendência. Lemos porque queremos algo dele e não para admirar o escritor. Portanto, não faz sentido o Vargas Llosa vir para o Brasil fazer pose, como se fosse obrigação agora achar que ele é o máximo. Veio elogiar seus patrões, os especuladores financeiros, ao dizer um “bom garoto” para a política econômica do governo e dar tapinha na cabeça dos escritores brasileiros, condescendendo que deveríamos também, quenemque ele, ganhar o Nobel de Literatura (ah, a falsidade).

Llosa chupou descaradamente o Euclides da Cunha, roubando-lhe a história de Os Sertões com A Guerra do Fim do Mundo, e teve a ousadia de citá-lo, junto com Jorjamado e Guimarães Rosa, como merecedores do prêmio, como se fossem os únicos. Esqueceu de Drummond de Andrade e João Cabral. Ou Erico Veríssimo, que é infinitamente superior a ele, Llosa.

Escrever não é contar histórias, isso até o Zé das Couves faz como ninguém. Por não ser do ramo, Llosa acha que escritor escreve e fica deitando prosa sobre isso, sentado em suas celebradas obras, quando se sabe que quem escreve é escriba, redator, escrivão ou escrevente. O escritor é um compositor como Verdi, um inventor de mundos sonoros representados pela palavra oral ou escrita. Escritores geniais como Homero ou Cristo nunca escreveram nada. Deixaram isso para os que fazem cara de produção de pensamento diante da folha ou tela em branco, ou ditam conferências pelo mundo afora defendendo os países ricos, esses modelos da Democracia Pura.

Basta ver o trabalho de um ator. Ele busca a sonoridade e interpreta o texto de ouvido. Muito ator nem lê o script, ele fareja a música que há nele. Não adianta, portanto, ficar pontificando sobre essa coisa fantástica que é ser um operário das palavras, para pobres estudantes que nada tem a ver com isso. Depois se queixam que a meninada não quer saber de ler. Claro, ensinam tudo errado. Você não fica falando como você tecla e como desde criancinha você tem teclado. Isso é absolutamente aborrecido. Você dá Terra dos Homens, de Saint-Exupery, ou Causos do Romualdo, de Simões Lopes Neto, ou Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, para ele ler. Para Proust e Conrad, é um pulo.

Mas se você dá abobrinha em forma de literatura infantil, livrecos comerciais metidos a besta, os deslumbra com porcarias, ele desova em auto-ajuda e acha que a sabedoria está numa frase falsa de Einstein. Você dá Mark Twain, o Lobato original (o publicado na Era Vargas, não esse desvirtuado pela Globo) e todos aqueles livros para crianças, que os grandes escritores, de Mario Quintana a Cecília Meirelles, inventaram. Não dá escribazinho de última categoria para o guri ler, dá logo o Sonho de Uma Noite de verão ou Romeu e Julieta.

O problema é que estão mais preocupados agora em ensinar as crianças a não ter preconceito de gênero do que ser alfabetizadas ou dominar as quatro operações. Querem formar um país de palhaços e não cidadãos de vida plena. As pessoas procuram nos livros de literatura não o que eles precisam saber, mas o que neles podem encantá-los. Para saber tem de estudar álgebra, História, Geografia. Para mergulhar num conto, crônica, poema ou romance é preciso que o autor seja de primeira grandeza.

Autores verdadeiros são raros e estão sufocados pela brutalidade geral. Temos engolidores de fogo, vendeiros, domadores de feras, trapezistas, mas poucos escritores de verdade. Eles são escassos, como estrelas em dia de tempestade. Precisamos colhê-los abaixo de chuva, guiados pelo instinto de sobrevivência, ouvindo o canto que se desprende das esferas. Lá, onde a coruja pia e a serenidade do talento bebe água.

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