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CONSCIÊNCIA DE CLASSE
Published: Dec 19, 2007 - 05:37 PM
Nei Duclós
A classe média brasileira contraria a tese de Karl Marx, que
sustentava ser a ideologia dominante a mesma da classe dominante. A
classe média não tem acesso à classe dominante, como comprovou Stanley
Kubrick em "De olhos fechados" (aquele filme que destruiu o casamento
de Tom Cruise e Nicole Kidman, por obra de um laboratório perverso do
diretor com o casal de atores).
Quem está por cima não se deixa ver, por isso quem está dependurado
no crédito não tem como conhecer a mentalidade dos poderosos. O máximo
que atinge é servir de platéia para o Antônio Ermírio de Moraes, o
único exemplar do topo da pirâmide social minimamente acessível para o
olhar do público. Aplaudir o brasileiro que freqüenta a lista dos mais
mais da Forbes não é exatamente assumir a ideologia da classe dominante.
Foi-se o tempo em que os milionários davam sopa na coluna social.
Hoje eles se escondem e deixam esse tipo de vitrine para os chamados
poderosos (ou pior, poderosas), ou seja, pessoas notórias, mas sem
nenhum poder. Elas contrariam Ibrahim Sued, que foi o papa da classe
média com espírito de alpinismo social. Gigi já chegou lá e cavalo
desce escada fazendo piruetas da velha Hollywood.
A classe média tem seu próprio sistema de valores, tão firme que é
de fazer inveja até mesmo aos ideólogos mais empedernidos. Não chega a
ser um decálogo nem costuma freqüentar as listas das frases mais
elaboradas. Mas é professado a cada segundo, por todo canto. A máxima
de que a classe média é a que mais sofre ocupa o primeiro lugar do
pódio. Para muita gente, faz sentido. Rico não se preocupa com nada e
pobre, como todo mundo sabe, já está acostumado. A certeza de que
pobreza acostuma é uma das mais irremovíveis idéias já concebidas pela
humanidade. Basta ver a Josicleide, como canta enquanto lava o banheiro.
Outra jóia da ideologia é que a classe média sustenta todas as
outras, o que tem a ver um pouco com a máxima anterior (a do sofrimento
exclusivo de quem paga as contas), mas com um sabor que lembra o
regionalismo. Pois é sabido também que o Sul sustenta o Nordeste, e o
interior, o Litoral, território de desocupados, segundo a sabedoria
generalizada. Se a classe média acabar será o fim dos tempos, pois
estará desfeita a base de toda a vida possível na terra. Impedir que as
pessoas possam esquiar no Chile ou fazer compras em Miami é um perigo
que ronda a nossa época, que ainda não atentou devidamente para a
catástrofe que isso significa.
O espírito de grupo da classe média é de fazer inveja. Quem possui
automóvel (desde que não esteja aos pedaços) sempre tem razão, contra
os que andam de ônibus, que estão cem por cento errados em qualquer
oportunidade. Não dá para entender: se o pobre está acostumado, por que
insiste em comprar carro velho e por que não se comporta dentro dos
coletivos? Está parecendo má vontade? Não é. Quem tem carro paga
imposto, gera emprego e merece chegar na sauna antes que a fábrica
apite a última chamada para os empregadinhos.
Há muita crítica à classe média, principalmente por parte de quem
não tem nada para fazer, como é o caso dos intelectuais, todos
marxistas, esses traidores da classe. Eles acreditam em Papai Noel,
insistem que o proletariado é revolucionário e deve tomar o poder. O
que salva o Brasil da desgraça é que o operário que tomou o poder virou
classe média e até está sendo chamado de magnata do petróleo. Imaginem
se fosse de macacão para despachar em palácio. Aliás, "em palácio" é a
expressão mais chic que já conheci. Não sei se está em desuso, o que
seria uma pena.
Mas seja quem for que estiver em palácio, jamais atende devidamente
as necessidades da classe média, que fica à mercê da bandidagem, já que
pobre, todos sabem, é isso mesmo, e os ricos se defendem. Quem vai
desarmado para a praia? Quem pega táxi no aeroporto no estrangeiro e
acaba deixando as calças? Quem compra apartamento no Morumbi e descobre
que vai morar em Cidade Ademar?
Se a saída pelo aeroporto não estivesse tão complicada, há muito
esse verdadeiro pilar da sociedade teria se mandado. Quem sabe quando
chegar o superavião coreano. Tenho certeza que a classe média
brasileira, que encolheu tanto, cabe inteirinha nele.

