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DUAS VEZES LINA BO BARDI
Published: Mar 27, 2007 - 08:10 PM
Nei Duclós
Das celebridades que conheci, ou pelo menos com quem
tive a oportunidade de conversar na minha longa vida dedicada às
palavras, algumas eram muito inteligentes, mas havia uma só que era
gênio. O nome dela é Lina Bo Bardi. Foram dois momentos. Um, quando
inaugurou o Sesc Pompéia, o espaço deslumbrante de espetáculo que a
grande arquiteta implantou em São Paulo e que impacta a cultura do país
por ser múltiplo, grandioso, finíssimo, original e popular. Foi quando
vi a exposição Tradição e Ruptura, que tinha Lina como curadora. E a
outra na sua casa do Morumbi, cercado de mata Atlântica, em que me
contou histórias maravilhosas enquanto bebia um minúsculo cálice de
licor. Lina é a pessoa que mais me impressionou porque via mais longe
do que todos e sabia te ouvir como ninguém, e dizer o que ninguém
jamais saberia dizer.
O ARRIVISTA GLAUBER - Lina
foi quem criou aquela presença imponente e mais do que moderna, eterna,
que abriga o Museu de Arte de São Paulo, escola da percepção e da
cultura, glória deste país. Ela me contou como conseguiu convencer
homens poderosos, inclusive seu marido, Pietro Maria Bardi, além do
governador Adhemar de Barros, de que era ela a pessoa indicada para
arquitetar o prédio do Masp. Fui fazer uma reportagem sobre a Avenida
Paulista (pautada por Fernando Poyares, então editor da revista
Santista) e ela me atendeu, pois me conhecia da época da revista
Senhor, quando Mino Carta tinha me convocado para entrevistá-la por
ocasião do início glorioso do Sesc Pompéia. Tradição e Ruptura foi um
balanço de 500 anos de criação brasileira nas formas, no design, na
arte, e destacava o cruzamento cultural do país que nasceu diverso, e
ao mesmo único na sua grandeza de nação soberana. Falou-me, nessa
primeira ocasião, de Glauber Rocha, o qual conheceu menino, na Bahia.
Lina fizera parte de um grupo de intelectuais europeus que foram para
Salvador e lá permitiram que toda uma geração de talentos baianos se
tornassem os novos ídolos da cultura brasileira. Foi por meio de Lina
que surgiram Glauber, Caetano, Gil, Tomzé, Capinam e tantos outros. Foi
o Renascimento na (e não apenas da) Bahia, que exerce sua influência
até hoje. Glauber era um arrivista, me disse ela. Fã de Glauber, fiquei
chocado. Você sabe o que é um arrivista? me perguntou, sabendo, pela
minha reação, o que me passava pela cabeça. É aquele que sempre quer
chegar primeiro. E ria. Não estava condenando Glauber, estava traçando
o perfil de um espírito inquieto, que cedo demonstrou sua vontade de
abrir caminho, ser vanguarda, chegar antes.
LINDO
SONHO DE MULHER - Depois dessa primeira vez, fiquei sempre com vontade
de repetir a dose. Muitos anos depois, consegui. Ela me recebeu sentada
na cadeira de balanço, de aspecto cansado e bastante triste. Já tinha
perdido seu Pietro, pessoa com quem convivi muitos anos, pois a coluna
de PM Bardi era lida em primeira mão por mim na revista Senhor, e
cuidava de detalhes gramaticais naquele texto em português escrito por
um italiano. Eu já entrevistara também Bardi, pessoa importantíssima,
que Assis Chateaubriand trouxe da Itália para montar o Masp e que aqui
ficou, casando depois com Lina Bo, a brilhante arquiteta daquele grupo
que aportou na Bahia. Aproveitei uma viagem do Pietro, disse Lina, pois
meu marido não acreditava que eu teria condições de bolar a sede do
novo museu. Coisa de homem. Pois fui falar diretamente com Adhemar de
Barros e mostrei meu projeto. Quando Pietro voltou, contei-lhe o
ocorrido. Sabe o que me respondeu? E a cara magnífica de Lina se
iluminava, ela que estava tão triste naquela tarde em que a vi pela
última vez. Ele me disse: lindo sonho de mulher. Pois Lina insistiu e
seu lindo sonho de mulher virou realidade. Depois, ela me contou como
usou um vestido completamente maluco numa festa no Trianon, um local de
encontros da elite paulistana, que de lá, naqueles verdes anos do
século 20, se vislumbrava a cidade. Pois a Avenida Paulista foi
construída num espigão de 800 metros de altura, que cruza a cidade do
Paraíso até a Pompéia. De lá se descortinava a cidade de Mario de
Andrade. Hoje, nos fundos do Masp, há um paredão de edifícios.
MAIS
LEVE DO QUE O AR - Lina sabia o que você pensava, entendia o que você
queria dizer antes de você abrir a boca. Falava muito pouco, aos
sussurros. Cada frase era uma inauguração. Tinha o dom da conversação,
porque gostava de gente. Veio de longe e adotou o Brasil, país que
transformou. Cada vez mais, o mundo descobre seu infinito talento e
cresce a admiração por essa brasileira por adoção, que me ungiu com sua
generosidade. Foi quando acreditei que a chama da divindade pode descer
no coração e na mente das pessoas. Cada vez que lembro dela, fico ainda
mais agradecido pelas duas conversas, que viraram reportagens, e que
deixaram em mim a alegria de ter feito algo próximo à grandeza que Lina
distribuiu nesta terra inventiva. Lina, a elegante eloqüência do gênio,
que germina entre nós. E da qual guardo a lição de que escutar não é só
um dom, mas um toque adivinatório, que a arte não é apenas talento, mas
transcendência e transgressão, que um país não é só fronteiras, mas uma
erupção, e que o concreto é mais leve do que o ar, como prova o prédio
do Masp, desde que você sopre nele a alma imortal roubada dos deuses.

