Mário Quintana: O Flagelo do senhor

maio 13th, 2005 | Por | Categoria: Livros, Poesia        

O FLAGELO DO SENHOR

Nei Duclós

caderno de cultura, Zero Hora

A longevidade de Mario Quintana é a sua melhor vingança. Ele sobreviveu aos passadistas escandalizados com o verso livre, aos modernistas que vaiavam o soneto, aos concretistas alérgicos ao discurso, aos épicos que odiavam o lirismo, aos românticos chocados com a crueza. Enfrentou também os engajados que confundiam ironia com alienação, os pretensos cosmopolitas que o acusavam de provincianismo, além dos entendidos que procuraram segurar o anjo pelas asas, quando tentaram enquadrá-lo num xadrez historicista, estruturalista, marxista, reacionário ou simplesmente pedante. Ao mesmo tempo, precisou lembrar a toda hora que não é “gaúcho”, no sentido fanático do termo.

Por isso, a melhor homenagem que se pode prestar a ele é resistir à última das tentações: a de tentar endeusá-lo. Uma das formas de colocá-lo no pedestal é esgrimir uma falsa intimidade, como se fosse muito próximo, o “Mario” de todos nós, o poetinha da Praça da Alfândega, o orgulho de nossos regionalismos mal resolvidos. Quintana parece ser sempre um bom motivo para nos derramarmos em poetices, pelo simples fato de o brasileiro, apesar das evidências em contrário, pouco entender do assunto.

O maior desafio do poeta no Brasil é, em primeiro lugar, aturar a proliferação do vício: todos “são” ou viram poetas ao longo do tempo. E o que é pior: publicam sem parar! Em segundo lugar, é enfrentar o sorrisinho diagonal das pessoas “práticas”, os que confundem poesia com frescura. É costume ignorar os ossos desse ofício maldito, Como depende de luzes raras e pulso firme, a criação poética é obrigatoriamente para poucos, já que contraria o senso comum. Como é impossível enquadrar o poeta, passa-se a tranformá-lo em “prata da casa”, adereço, bibelô. É difícil convencer os cínicos profissionais de que a casa da sogra fica em outro endereço .

Muitas histórias folclóricas que contam a respeito de Mario Quintana expressam – normalmente, de uma forma velada – repulsa ao farisaísmo e à mesquinharia. Só que são confundidas com excentricidades, “coisas de poeta”. Mas um poeta não é nada do que imaginamos. Sua voz é que está com a última palavra. Para quem consegue vê-lo através dos seus disfarces, sabe que ele é o flagelo do Senhor na forma de anjo. Sua espada veio para cortar-nos a língua.

publicado em 25 de julho de 1992,no segundo caderno da “ZERO HORA”

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