News
GUERRA TOTAL
Published: Dec 19, 2007 - 05:45 PM
Nei Duclós
O Brasil sempre esteve em guerra. No início, havia a obrigação de
todo senhor de engenho dispor, por lei, de determinado número de armas
e munição, devidamente guardadas em depósito definido em suas dimensões
exatas. Essa e outras informações, contidas no trabalho da historiadora
Nanci Leonzo, da USP, sobre as Forças Armadas da América Colonial
portuguesa, são pouco conhecidas, porque o livro jamais foi publicado
devidamente, numa editora importante e com tiragem decente. Junto ao
conflito permanente, foi construída, a ferro e fogo, a versão do país
pacífico.
Um fato como o bombardeio da cidade de São Paulo por duas semanas,
que colocou em fuga metade da população de 700 mil habitantes em julho
de 1924, coincidiu com a polêmica de que nunca houve bombardeio. Os
livros da época reproduzem esse debate, totalmente absurdo diante das
evidências do canhoneio e da metralha. Esconder batalhas e mortandades
e só se referir a elas como acontecimentos isolados serve a vários
interesses inconfessáveis.
Mas o assunto guerra está, aos poucos, saindo do amadorismo e dos
limites do memorialismo, para alcançar status de ciência, graças às
pesquisas e o fim das resistências em reconhecer que somos um país como
os outros. Se você juntar Pernambuco em 1817, Cabanagem e Farrapos em
1835, Paraguai em 1865, Federalista em 1893, Canudos em 1898, Chibata
em 1910, Contestado em 1912, Copacabana em 1922, as guerras de 1923,
1924 e a Coluna Prestes na agonia da República Velha, a Revolução de
1930, a Paulista de 32, a Intentona em 35 e somar os atuais índices de
violência urbana e rural, chegaremos à assombrosa conclusão que
adoramos nos tirotear sem descanso.
No início da República, os acordos existentes vieram por água abaixo
com a expulsão do Imperador. O resultado foi a guerra total. É comum
colocar a chamada Revolução Federalista de 1893 como o embate entre
dois campos bem específicos, os pica-paus e os maragatos. Mas a trama é
bem mais complexa. Num conflito que tinha como um dos seus slogans "Não
damos nem pedimos quartel", a mortandade, até hoje pouco dimensionada,
se alastrou pelo país, já que todo o território nacional esteve
conflagrado.
No filme "A vida secreta das palavras" (2005), de Isabel Coixet, a
refugiada Hanna, interpretada por Sarah Polley, conta como foi
torturada pelos soldados sérvios, povo ao qual pertencia. Os Bálcãs,
depois do esfacelamento da Iugoslávia, mostraram o que acontece quando
um acordo político e social, ao ser rompido, explode em carnificina
generalizada. E não era apenas por motivos étnicos ou posições
políticas. Uma vez, na televisão, vi um oficial de um país africano
denunciando que as pessoas saqueavam sem inspiração alguma de ideologia
ou raça, era apenas a barbárie se manifestando.
É importante estudar a guerra no Brasil. Dizer que nos libertamos de
Portugal de forma incruenta, por exemplo, é se render à versão do
diplomata Oliveira Lima, veiculada no final do século 19. A versão
fazia parte dos negócios de estado. Mas a verdade é que de 1821 a 1823
o Brasil lutou para se separar, com batalhas no Nordeste com mais de
400 mortos, segundo o historiador José Honório Rodrigues.
Mergulhar na guerra serve para revelar as feridas ainda abertas,
redimensionar o papel do heroísmo, e lançar alguma luz na surrada
identidade nacional.

