AINDA TEMOS A TERRA

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas        

Nei Duclós

O amanhecer está indeciso entre as pinceladas de aurora e a hegemonia do cinza, que as nuvens modelam meio a contragosto. Vaidosas, elas preferem sempre o tempo bom, que a lua nova, no zênite, anuncia mais uma vez, usando aquele colar invisível que traz como pingente a derradeira estrela. Daqui a pouco tudo poderá voltar ao normal, mas por enquanto é essa flor que brota de um ar fino quase frio. É fim de verão e o outono, velho tio encapotado que visita a família sempre que pode, já envia telegramas pelos pássaros ariscos, desses modernos, que não confiam mais em quintais. Perdemos o principal neste longo tempo duro, que é o de ficar confinado em paredes de um domicílio mutante, mas sempre o mesmo, que nos afasta do que temos de melhor. Sorte de quem vive cercado pela abóbada que faz um estádio de luz azul sobre seu teto e pode pisar a grama ainda molhada de orvalho, o sangue tardio da noite que se foi.

TRILHA – Herdamos o paraíso, meu pai, e deles fizemos proveito até arrasarmos com tudo. Hoje vivemos sob a ameaça do eucalipto e da soja, do pasto o­nde deveria haver mato. Quando visitei as cataratas de Iguaçu, junto com alguns engenheiros, avisei: não vão destruir isto aqui, como fizeram com as Sete Quedas. Vemos o solo fértil e dele queremos tirar óleo, álcool, enquanto o sol, inútil, despeja sua força motora sobre os novos desertos. Os ventos sopram em vão para que possamos sonhar alternativas que vão trazer o saara para cá. São os últimos dias do planeta Terra, meu pai, ou sou apenas um pássaro que descobriu ter chegado sua hora de partir? Para o­nde, se já migrei tanto? Para que lugar devo ir, se aqui ainda existe o que devíamos jamais esquecer, o horizonte pontuado de morros ainda com árvores? Para cá todos se dirigem, como náufragos de um pesadelo. Chegam e se deparam com o Brasil, esse fabricante do caos, e acabam sentindo saudades do que perderam. Mas é cedo para partir. Venha, que te levarei pela trilha.

CHEIRO – Basta dobrar à esquerda daquela estrada que virou rua e está rendilhada de casas que tapam a vista da praia. Entre pelas servidões e becos, para se chegar às dunas, o­nde alguns carros encostam desabitados. Ali paramos e vamos enfrentar os morros de areia. Cruzamos então a barreira e no outro lado, junto à grande pedra, a praia do Santinho, agora deserta, acaba. Ali fica o pintor da ilha, com seus barcos e naturezas vivas. Saltamos pela subida e vamos até o lugar o­nde existem mistérios. Lá somos rodeados pelas atentas gaivotas. O mar prometia baleia, daqui a pouco tainha. Ou talvez apenas uma tarde de sol, com banho fora de cogitação, pois a água começa a temperar seus sais de inverno. Assim mesmo muitos se arriscam, mergulhados no sonho de viver à parte do país construído com ruínas e metais, enquanto aqui sobra espaço para a vista larga, o corpo agradecido e o cheiro de uma paixão ardida.

SOL – O Brasil está voltado para o que perdemos, enquanto a Terra continua no seu esplendor de sempre. Falta-nos a poesia quando o assunto é amanhecer. Queremos luta, mas estamos cansados. Quem sabe os primeiros raios de sol que agora batem como setas nos muros deste subúrbio me avisem que é hora de parar, de dizer adeus a tanto sofrimento e abraçar definitivamente o poema que salva? Pode ser.

CORAÇÃO – Levanto da cadeira e prometo colocar as coisas em ordem: o coração em primeiro lugar, o abraço sobre todas as coisas e estas palavras, que servem não para o consolo, mas para a verdade que assoma como uma ventania prestes a depositar as folhas deste outono que chega luminoso e claro como o país que sonhamos.

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