CINCO VEZES TARSO DE CASTRO

mai 13th, 2005 | Por | Categoria: Memórias, Redação sem Máscara        

Nei Duclós
Tarso de Castro UMA: FECHAMENTO

– Vamos fechar essa merda em cinco minutos!

Era um dos muitos gritos de Tarso de Castro, anunciando sua má vontade em participar diretamente do fechamento da Ilustrada, suplemento cultural da Folha de S. Paulo, no final dos anos 70. Ele era obrigado a fazer isso quando o editor Antonio Carlos Coutinho, o Zuba ( hoje proprietário e diretor da revista Expressão, de Florianópolis) tirava férias. O fechamento não podia atrasar nem um minuto depois das oito horas. Tarso chegava às cinco, anunciava-se e sumia (Estava no bar? Estava no último andar? ). Voltava um pouco antes das oito (quando conto essa história, gosto de dizer: “ele voltava às cinco para as oito”). E realmente fechava em cinco minutos.

Pegava as tripas de laudas (que na época era coladas, formando serpentes de papel) com um braço só, levantava até os olhos e tascava:

-Jesus é Oxalá.

E caía na gargalhada. Era o título – que ele não escrevia, apenas ditava – de uma matéria sobre sincretismo religioso, já que a Ilustrada de Tarso não se dedicava apenas ao show- biz, nem a pauta era ditada pela indústria cultural. A equipe tinha autonomia e cada repórter ou redator assinava embaixo, tanto a notinha quanto a reportagem.

Tarso pegava a outra tripa de laudas e ditava a legenda de um perfil de Lacerda:

– Abre aspas: ao invés de tomarmos o caminho do Canadá, tomamos o caminho da Índia.

Admirava, apesar de ser seu inimigo político, o frasista Lacerda, que era o verdadeiro autor da expressão “fi-lo porque quilo”, em resposta à pergunta “por que fê-lo?”, de Jânio. Este, a quem normalmente é atribuída a boutade, jamais faria brincadeiras com a língua, que levava a sério. Eu desconfiava daquele fechamento, que acreditava feito nas coxas. Imaginava que ia dar tudo errado.

Mas no dia seguinte, ao abrir o jornal, tudo fazia sentido: os títulos, as legendas, a disposição das matérias. O fechamento, que para nós custava muita dor de cabeça, para ele era um jogo. Sua cabeça estava solta e o olho clínico, atento.

capa do Folhetim

DUAS: ABERTURA

Tinha aterrissado na redação indicado por Jorge Escosteguy, que na época trabalhava na Veja. Oficialmente, não havia espaço para mim – ou seja, a “casa” não tinha pedido uma contratação, mas Zuba precisava de um redator e me colocou lá para ajudar no fechamento, sem o conhecimento de Tarso. No primeiro contato que tive com Tarso fiquei bem impressionado pela maneira direta e franca da sua conversa, que foi rápida e eficaz. Acabei ficando na Folha dois anos e meio porque Tarso confiou em Zuba e também porque foi com minha cara.

Tarso estava mais voltado para o iminente lançamento do Folhetim e deixou a Ilustrada nas mãos da equipe coordenada por Zuba e secundada por Marco Antônio de Moraes, o Markito (depois de cada fechamento, Markito convidava: Nei, vamos até o bar para parar de tremer). Tarso tinha deixado sua marca no suplemento, ao editar uma série de reportagens de capa enfocando, cada dia, uma artista mulher (Bruna Lombardi e Rita Lee mereceram esse destaque). A Ilustrada não era um espaço de matérias frias. Tinha personalidade própria, agitava, avançava sobre outras editorias, derrubava murinhos, criava casos, provocava ciúmes.

Tarso alimentava o rumor, fazia cena. Quando lançou o Folhetim, avançou pela redação com uma prova da capa que tinha – é claro – o Chico Buarque colorido, com o título “Olhos nos olhos”. Caminhava lentamente, com a capa à mostra, triunfante, segurando uma gargalhada explosiva, que rebentava no minuto seguinte.

A liberdade instaurada por ele costumava provocar dores de cabeça em Tarso, que chegava apavorado na mesa da edição para dar alguns toques:
– Não copisquem os colunistas, vocês enlouqueceram?

capa da revista Careta

TRÊS: CARÁTER

Migrante recém chegado em São Paulo em 1976, fiquei ligado na Ilustrada editada por Tarso de Castro, jornalista que lia e gostava não só desde a fase do Pasquim, mas do Panfleto – o Jornal do Homem da Rua. Lia o Panfleto – uma das muitas obras da dupla Fortuna/Tarso – ainda em Uruguaiana, RS, onde vivi até os 17 anos. Na Ilustrada, assinei reportagens, crítica musical, fábulas e comentários. Tarso nos deixava solto, porque apostava na criatividade alheia. Ele criava o cenário da invenção. Todos, medíocres ou não, saíam ganhando.

Sabia ser indiferente, porque era seletivo, apesar de aberto. Mas também sabia ser solidário. Quando tive um problema grave de família, fui buscar o salário para dar, inteiro, de entrada nas despesas do hospital – tinha havido uma emergência e eu não dispunha de plano de saúde, pois na época era autônomo, nem tinha carteira assinada. Ele soube da história, fez uma cara feroz e pegou o telefone, gritando para o diretor financeiro:

– Paga o hospital do nosso redator!
O diretor, claro, não gostou. Mas Tarso fincou pé e jamais precisei pagar aquela despesa.

capa do Pasquim

QUATRO: FORTUNA
Na época, não cheguei a fazer amizade com Fortuna, o braço direito de Tarso. Só em 1988, quando fui assessor de imprensa e precisei de um diretor de arte, é que me aproximei bastante desse gênio brasileiro, que amargou longo exílio interno depois de tanto fazer pelo jornalismo. Fortuna era muito mais que um cartunista seminal, mestre do traço e da piada política. Escrevia como poucos e, leitor de Gutemberg, era criador visual de primeira, com extrema lucidez no olhar, capaz de detectar um desvio de meio milímetro num fio mal colocado (antes da computação).

Cito Fortuna neste depoimento porque ele se queixava bastante da injustiça que fizeram ao Tarso em relação ao Pasquim. Para Fortuna, o Pasquim foi obra de Tarso e não dos outros colaboradores, que foram apenas coadjuvantes. O Pasquim, como o Panfleto, como Enfim, Folhetim, eram produtos do inventor de jornais Tarso de Castro, filho de jornalista e admirador de Samuel Wainer, o repórter que virou cartola da imprensa.

Tarso de Castro

CINCO: FINAL

– Recebeste meu livro de poesias, Tarso? perguntei.

– Estava lendo teus versinhos para minha namorada, respondeu ele.

Quando me encontrava, gostava de lembrar nossas raízes gaúchas. Gritava:

– Tchê, perdi minha guaiaca de fumo e fiquei a tarde toda campaneando.

E achava isso sempre muito engraçado, o que mantinha o mote com o mesmo sabor da primeira vez.

A última vez que vi Tarso, foi no centro de São Paulo. Abracei seu corpo muito magro, que ainda tinha força para o abraço. Estava desenganado. Morreria pouco depois, com apenas 49 anos. No seu velório, vi seu rosto muito pequeno, encolhido. Toda vez que me lembro dele, me dá saudade. Faz falta sua coragem, seu talento, seus ruído, sua ética, seus jornais, sua solidariedade.

Fui seu amigo esporádico, episódico, sem muita importância. Mas sua generosidade tinha espaço para todos os contemporâneos.

Hoje, quando alguém fala mal de Tarso, encaro a declaração como uma ofensa pessoal.

9 comments
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  1. É verdade. O Pasquim foi obra de Tarso de Castro.

  2. RATO DE REDAÇÃO: HOMENAGEM A TARSO DE CASTRO, UM JORNALISTA BRASILEIRO

    Organizadores: MAURO GAGLIETTI; ALINE DO CARMO; OLMIRO SCHAEFFER
    Prefácios e Apresentação: BÁRBARA ABRAMO; GILBERTO PERIN; LUÍS AUGUSTO FISCHER; TÂNIA CARVALHO

    Capa: PAULO CARUSO

    AUTORES DOS CAPÍTULOS: Silvia Brugnera; Marina Campos; João Vicente Ribas; Alessandro Batistella; Mauro Gaglietti; Carlos Alceu Machado; Roberta Scheibe; João Carlos Tiburski; Maria Isabel Bristott; Ivaldino Tasca; José Ernani de Almeida; Francisco Carlos dos Santos Filho; Sônia Bertol; Bibiana de Paula Friderichs; Roberto José Ramos; Carla Rodrigues; Melchíades Cunha Júnior; Sérgio Vaz; Aramis Millarch

    Páginas: 166
    Preço: R$20,00 – Preço no lançamento (Passo Fundo e Porto Alegre) Preço: R$39,00 (nas livrarias) *Editoras: EDITORA IMED & EDITORA PASSOGRAFIC
    Passo Fundo, 2010

    Sinopse O livro ‘Rato de redação: homenagem a Tarso de Castro, um jornalista brasileiro’, publicado pelas Editoras IMED e Passografic, será lançado no dia 11 de setembro (sábado), a partir das 20h30min, no Velvet em Passo Fundo e na Livraria Palmarinca em Porto Alegre no dia 16 de setembro (quinta). A obra apresenta e analisa a trajetória do jornalista passo-fundense Tarso de Castro: o rato de redação mais famoso dos círculos cariocas e paulistas, que ficou conhecido a partir do Pasquim, jornal brasileiro que combateu a Ditadura Militar com sarcasmo, criatividade e muito humor. A capa do livro foi idealizada pelo chargista e cartunista Paulo Caruso. Já o prefácio e a apresentação foram escritos por Bárbara Abramo; Gilberto Perin; Luís Augusto Fischer e Tânia Carvalho. De acordo com um dos organizadores da obra, o Prof. Dr. Mauro Gaglietti, o livro reúne vários textos de diferentes autores para marcar a polêmica passagem do autor de frases como: “Viver é fácil. A dor é apenas o intervalo para fumar”. “Perdi 25 milhas. Por sorte, não as tinha”. “Devo ter todos os defeitos possíveis, mas faço questão de exercer minhas virtudes”. “É preciso ter amigos, mas poucos”. Conforme Mauro, a obra também apresenta vários capítulos cuja autoria é de jornalistas e estudiosos da vida e da obra de Tarso de Castro. “Imperdível é, também, a entrevista que Tarso de Castro fez com Chico Buarque e Caetano Veloso”, frisa o professore. Durante sua trajetória, Tarso de Castro, tornou-se amigo de pessoas influentes como: Chico Buarque, João Ubaldo Ribeiro, Luiz Carlos Maciel, Hugo Carvana, José Lewgoy, Leila Diniz, Regina Rozemburgo, Antonio Carlos Jobim, Vinicius de Moraes, Ricardo Amaral, Julinho Rego, César Thedim, Leonel Brizola.

  3. Um livro sobre Tarso é sempre bom. Muitos outros deverão vir. Sua importância cresce conforme vai se diluindo a névoa de preconceito que envolveu sua biografia.

    Tarso vivia fora da redação, como mostra esta cronica pioneira, publicada quando ninguém mais falava dele. Era um estadista do jornalismo, transcendia o espaço limitado onde ficavam os redatores, editores, repórteres. Trafegava em outras paragens. E só descia na redação para intervir com sua verve, orientações, exemplos e textos memoráveis. Não ficava mourejando, batucando as pretinhas, como sugere o título Rato de redação. Também nunca foi rato. Era um leão.

    Mas Tarso era maior e continua polêmico. Parabéns pelo lançamento.

  4. Nei, meu caro, salve!

    Conheci todos do Pasquim… Menos o Tarso de Castro, o melhor jornalista deles…

    Boa a tua lembrança, acredito, vivemos impregnados de memória…

    Li, tempos atrás o livro “75 kg de músculos e fúria TARSO DE CASTRO – a vida de um dos mais polêmicos jornalistas brasileiros”, de Tom Cardoso… Com orelha de Jaguar e prefácio de Luiz Carlos Maciel…

    Trás a famosa fotografia em que aparece ao lado de Che Guevara em Punta Del Leste, 1961 por conta da qual – diz a lenda – teria consquistado o coração da Candice Bergen…

    Boa leitura, um abração do viking

    Olsen Jr.

  5. Nei, favor corrigir aí, ando meio distraído e sequer tenho a desculpa de estar “apaixonado”…

    Escrevi Luis com “s” e é com “z” de Luiz Carlos Maciel…

    Também, é traz (com z) de trazer e não de trás…

    Grato.

  6. Com s ou com z, teu comentário é sempre bem vindo. Obrigado, Olsen!

  7. Reverências ao gênio, cumprimentos a você por lembrar TS e sua obra.

  8. Inda tenho a coleção do “folheto”, da Folha. Traso botou um grande artista, para escrever, página inteira…
    Nos textos, não havia maiúculas, nem ponto e vígulas. E nem acentos, nem espaços…
    O escrevinha-dor… – que morou na Mangueira – , tirava onda…
    Sentava o dedo na máquina de escrever… E… Ai vem a genialidade do Bom Tarso, amigo de meu Pai…
    Hélio Oiticica.
    Escrevia páginas, sem erros, e dizia tudo. Repito…: Sem maiúscalas, sem pontos ou vígilas. Era tudo emendado
    A Folha ficou puta, com ele… Escreveu – numa das sempre brilhante crônicas -, o seguinte…:
    “Hoje eu tenho a vontade de quebrar a cara de Deus!!!”
    Ai veio o padre, o bispo… O arcebispo, pedindo sua demição… E, outro grande articulista da Folha em sua defesa… Flávio Rangel… “Venho, através deste poderoso rotativo, afirmar que sou aluno do Tarso. Se ele for demitido, terei orgulho de ir junto com ele!!!”
    Minto?

  9. Já que é prá brincar…
    A última vêz que vi o bom Traso, foi no Florentino, Leblon. Que não confundam com a FIORENTINA, Leme, onde frequentava, também!
    Papo maravilhoso, com mulheres lindíssimas… Extremamente mal vestido…
    Só deus & o diabo sabem, o quanto aprendi com ele!
    Luciano

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