NA CASA DO POETA MAIOR

mai 29th, 2005 | Por | Categoria: Contos, Livros, Poesia        

Nei Duclós

Em Porto Alegre, roçando a beira do rio, passei de táxi pelos bairros de Praia de Belas, Tristeza, Ipanema e Espírito Santo. Numa pequena rua que desemboca na avenida vizinha às águas do Guaíba, anuncio-me. Desce então, do alto de sua casa, pela ladeira suave que vai até o portão, aquele homem reservado e digno, que me dá a honra de receber-me em seu refúgio. Foi uma tarde de revelações.

O HOMEM DO CREPÚSCULO -Enquanto sobe de volta para levar-me até sua sala de estar, J.A. Pio de Almeida vai me mostrando as árvores que fazem parte do seu sítio, e que o protegem do movimento da rua, abraçando-o em folhas fartas, sombras tranqüilas, raízes saltando do chão com cheiro bom de terra boa. Aponta seu braço para o alto, para onde vão os troncos espalhando galhos, em gestos que o identificam com a natureza próxima, memória de uma rede telúrica de laços. Nosso Poeta Maior desdobra-se em gentilezas, apoiado pela tranqüila presença de sua esposa Naja, que todo o tempo nos cerca de atenções. Vou então para uma sala de móveis sólidos, arrumados em torno de uma ampla janela, fazendo vizinhança a uma bandeira antiga do Rio Grande do Sul e um quadro de um índio charrua montado e sacudindo a alma mortal da boleadeira.

Tudo tem história na casa de Pio de Almeida. Não por ser de outro tempo, mas por ser uma opção consciente de coerência pessoal, que nos transmite segurança e conforto, assim como suas palavras, que saem com a maestria dos grandes narradores. O sol que cruza a folhagem de sua floresta particular lá fora atinge em cheio seu perfil. Só as palavras poderão descrever aquela cena, só o verbo encarnará aquela tarde, nenhuma imagem que seja criada por mim traçará um perfil mais nítido do que este, que recomponho de memória, porque assim tem de ser, assim trabalha o espírito do poema, translúcido cavaleiro a temperar a vida. “Qual o sentido da minha existência?” pergunta o poeta, sem cair no lugar comum: “O que significa esse espaço de tempo entre meu berço e meu túmulo?” E ele mesmo responde: “Sou o crepúsculo do gaúcho pampeiro, sou a testemunha daqueles homens que se foram. Não faço parte deles, pois muito cedo fui retirado do seu convívio para ir à escola. Mas posso te assegurar: tudo o que escrevo está impregnado daquele mundo que vivi na infância, e daquela gente que me criou é feito o sangue da minha palavra”.

RELÂMPAGO – O sol foi entregando os pontos, mas a claridade permanecia firme. O poeta me recita, em espanhol, o poema de Neruda que fala de alguém que sabia ler o alfabeto do relâmpago. Neruda é um dos autores que levaria para uma ilha deserta. Outro é Guimarães Rosa. E o terceiro guardo para mim, para não despertar certas curiosidades, mas é um autor que um dia será plenamente reconhecido. Ele tem a grandeza poética que toda antropologia deveria ter, e encerra mistérios que nenhuma outra obra possui. Fala-me então o poeta da sua paixão pelo Uruguai, lugar onde já teve terra, homem que é descendente de proprietários de sesmarias no início do século 19. Teve terra lá, mas vendeu. Agora passa um bom tempo naquelas bandas da fronteira seca, onde visita campos, vertentes, morros e marcos históricos. Diz de sua amizade com Breno Caldas, o mítico proprietário da Caldas Junior e de como entrou naquele que era o reduto maior do jornalismo da nação riograndense. De como teve de romper cercos, transpor cercas e tocar a boiada de suas palavras. “Nunca quis cargo nenhum, sempre quis ser redator do Correio do Povo”, confidencia-me. Olha para fora e conta sobre sua relação reservada e amistosa com vizinhos.

FRIAGEM – Chamo o táxi de volta e o Poeta Maior me acompanha novamente até o portão, depois de eu ter compartilhado a mesa da família, onde a filha única, casada e moradora numa bela casa que fica nos fundos da propriedade, faz par com o marido simpático e jornalista que ainda sente-se um estreante. O motorista, que estava perdido, atende aos nossos gritos e João Araújo Pio de Almeida então se despede de mim, privilegiado visitante daquela casa sagrada, onde vive o maior entre os maiores, o escritor que soube construir uma obra e nada exigiu em troca. Hoje ele vive tranqüilamente, sem nada a dever a ninguém, me recebendo porque sua grandeza extrapola os limites das distâncias e das admirações. Somos homens da mesma geografia e eu sou seu aprendiz. Chamo-o de Mestre, porque ensinou-me, antes de conhecê-lo pessoalmente, só pelo exemplo de sua obra, a importância da postura de um autor, a necessidade de comportar-se como um escritor clássico numa época que apostou na superficialidade e na cultura descartável. O carro parte e Pio de Almeida acena com todo o braço, como fazem os homens do pampa, estejam onde estiverem – nós, que fazemos parte da terra banhada pelo rio Uruguai e seus arroios, Ibicuí, Itapitocai, Rodrigues, Touro Passo…O som dos pássaros noturnos marca o território dos espíritos: Caa-porã, Mãe de Ouro, Homem-de-Preto. Vejo o trem parar no ermo de Guassu Boi. Lá está o menino João, pronto para cruzar a noite numa estalagem sinistra, denominada Friagem. Tem apenas nove anos. O universo o observa, como um gigante respeita um herói.

ALÍVIO – Vamos pegar alguns trechos do assombroso livro de contos As Brasinas, editado em 2001 (editoraage@editoraage.com.br) em Porto Alegre, de J. A. Pio de Almeida. Trata-se de uma obra-prima absolutamente desconhecida, que pode ser comparada ao que há de melhor do grande João Simões Lopes Neto (outro clássico). Sobre um personagem inesquecível, Fausto Balastraca, Pio de Almeida conta como partiu para sempre: “Até o dia em que foi viver na casa branca dos ventos solitários…” Balastraca “era o alívio dos necessitados, a palavra vertida dos celestiais caminhos, cruzes espalhadas na testa, no coração, no vento que nasce e no vento que some – e misturas douradas de ervas colhidas no jujal, por entre as pedras do cerro, no banhadal provedor…” Pio de Almeida lança luzes sobre dois mistérios. Primeiro, o Homem-de-Preto, que é uma assombração, coisa que eu não sabia, mesmo sendo admirador do grande clássico de Paulo Ruschel e imortalizado por Os Gaudérios, Os Homens de Preto, música magnífica vestida pelo arranjo do genial José Gomes (ele está voltando, estou avisando, o maestro Zé Gomes está voltando…). Eu achava que eram campeadores vestidos de preto, mas não, são fantasmas que “grudam” nos tropeiros.

Outro enigma é o fim dos índios charruas, que desafiavam “as tropas dos referidos reis, no alto de uma coxilha, armados de lanças de taquara e boleadeiras de pedras mouras”. O Poeta conta como foi o massacre daquele povo: “”Se dizendo amigo dos charruas, dito general inventou um churrasco na costa dum arroio que se chama Salsipuedes, convidou a indiada, distribuiu canha em guampas, e, na hora dos abraços, com um exército de mil homens caiu em cima daquela gente, matando o que não escapou”. O Poeta conta causos à beira do fogo: “Na madrugada funda, na hora da ronda, sem aviso, no veludo do coxilhame apagado, lá longe, aparecia o Fogo-Malo, irmão do Boitatá, alma vivente queimando…” Paz no campo e na cidade: o prazer de ler nos salva das heranças de ódios e nos treina para o abraço.

UM CLÁSSICO OCULTO – Quem é esse poeta estupendo que hoje está recolhido, quieto, “oculto entre as colunas altas do Silêncio”, como diz, no bairro do Espírito Santo, em Porto Alegre? É um brasileiro também descendente de guarani e portugueses, da estirpe dos primeiros donatários de sesmarias que se fixaram no extremo Sudoeste rio-grandense. Sua poesia pertence ao mais alto patamar da literatura brasileira. Leiam esses versos: “”Há um tapa de jaguar vencido em meu silêncio/ um taciturno fim de época rebelde/ um não-sei-quê de sombra e glória no que eu penso…” Mais: “Procuro temperar o rubro nunca visto/ a cujo faiscar dos ângulos confiro/ relâmpagos de espada estrela pura e vento”. E mais estes: “Atiro nacos de poemas em cima da terra nova/ – eis meu sangue recém/ derramado meu sacrifício vinde ver/ o bravo/ que morre por/ uma coisa que eu não sei se é vergonha ou liberdade.”

J. A. Pio de Almeida é uruguaianense, nasceu no interior do município, no meio do pampa, e, menino, foi aluno de um professor de longas barbas e postura bíblica. Sua poesia é clássica e precisa ser conhecida. Seus livros mais importantes são: Claves da Harpa e do Vento (Ed. Sulina, 1970) , Ciclo (Lume Editora, 1977) e As Brasinas (crônicas, Age Editora, 2001). Levei um ano para conseguir convencer o poeta a me enviar estes livros. Agradeço agora no ar pela grandeza do seu gesto, pela gentileza do seu trato e pela majestade da sua biografia, que engrandece o país e nos serve de exemplo. O que João Araújo Pio de Almeida, poeta maior, escreve está gravado no coração da civilização a qual pertencemos, a de uma nação que foi construída com gerações de brasileiros vindos de todas as nações e que encontraram paz e dignidade depois de uma eternidade de sofrimentos.

2 comments
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  1. Parabéns .

  2. Obrigado, Neusa.

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