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A rivalidade com Cartago

Roma, após porfiadas lutas, era senhora da Itália do estreito de Messina ao Arno e ao Rubicon, mas a "paz romana" não poderia ser uma realidade enquanto Cartago lhe disputasse o domínio do Mediterrâneo. A rivalidade era fatal, desde que a antiga colônia fenícia firmava sua autoridade sobre o litoral setentrional da África, do seu excelente porto para oeste, quase toda a Sicília, menos Siracusa e uma faixa de terra na costa oriental da ilha, e a Sardenha, pagan-do-lhe também tributo os habitantes da Córsega e da Espanha meridional. Suas colônias e fortalezas tinham transformado a bacia ocidental do Mediterrâneo — Cartago ficava como que no ponto de junção das duas bacias — num lago cartaginês, percorrido pelas suas galeras e em cujas águas, diziam esses navegantes, ninguém lavaria as mãos sem sua licença.

A Sicília como pomo de discórdia

A expansão romana via-se destarte tolhida, e os cartagineses na Sicília representavam especialmente para os romanos aquilo que, no dizer dos ingleses, representaria para a Grã-Bretanha o poderio alemão na costa belga, a saber, uma pistola engatilhada. O rompimento veio de fato por causa da Sicília, que gregos e cartagineses se tinham disputado durante dois séculos, unindo-se contra o inimigo comum romano quando este (264 a. C.) invadiu a ilha sob pretexto de proteger amigos. Derrotados os aliados, o rei de Siracusa passou-se para o lado dos romanos, que entretanto decidiram vencer Cartago no mar, o elemento onde se tornara indispensável atacá-la.

Organização política e social de Cartago

Cartago era politicamente uma oligarquia despótica. Havia, como em Roma, dois magistrados executivos — os sufetas — e um senado composto de capitalistas soberbos e egoístas. Os cartagineses tinham fama de imorais, traiçoeiros e cruéis. Os romanos, que deram à traição o nome de fé púnica ou cartaginesa, decerto lhes exageraram os defeitos e sobre eles se fundam os historiadores; mas é fato que o Moloc cartaginês só se apaziguava com sacrifícios humanos. As vítimas eram colocadas sobre os braços estendidos do ídolo em bronze e rolavam para a fornalha que chamejava no seu interior.

Faltava a essa sociedade o espírito de progresso democrático hostil à aristocracia dominante, e também o espírito de governo que Roma possuía e que se manifestava na admirável organização do Estado e na formação de uma nacionalidade compacta, à qual não podia ser comparado um império como o cartaginês, feito de trechos dispersos e sujeitos a um jugo tirânico.

Os habitantes e o exército. Os Barcas

Cartago tinha contudo uma população urbana de mais de meio milhão acrescida pelos emigrados de Tiro, capturada por Alexandre; tinha um numeroso exército de mercenários, contando os exímios cavaleiros númidas — os cossacos de então — cavalgando sem selas e lançando suas setas em pleno galope, os peritos fundibulá-rios das ilhas Baleares, infantes africanos, iberos e gauleses; tinha amplos recursos navais e teria um grande capitão qual Aníbal. Diz-se que sua família, a dos Barcas, não era fenícia, sim líbia, enriquecida no comércio e na agricultura. Só podia por esse fato ser mais intenso o fervor patriótico de Aníbal, a quem, segundo a tradição, o pai, Amílcar Barca, fêz jurar quando pequeno que execraria Roma para todo sempre. Com receio dos líbios, que eram a população dominada, é que Cartago empregava sobretudo forças mercenárias.

O primeiro encontro no mar

Na primeira batalha naval que travaram foram os romanos, sob o cônsul Duílio, vitoriosos graças à abordagem que nela praticaram, sempre que se lhes ofereceu a oportunidade de espetarem na embarcação inimiga o passadiço móvel que tinham imaginado, guarnecido de um esporão. No corpo a corpo os romanos levavam sempre vantagem: tinham aliás improvisado uma esquadra e construído até qüinqüerremes, que eram os dreadnoughts do tempo.

Vicissitudes da primeira guerra púnica

Após essa peleja naval, ocorrida defronte de Miles, na costa setentrional da Sicília, os romanos transportaram a guerra para o solo africano, destroçando outra frota inimiga e desembarcando perto de Cartago (256 a. G). A fortuna das armas sorriu-lhes a princípio, mas logo depois sofreram duros reveses. Derrotado, o cônsul Régulo caiu prisioneiro; uma esquadra de socorro foi aniquilada por violento temporal, e sorte igualmente ingrata teve uma nova expedição. A guerra confinou-se outra vez à Sicília onde, batidos os cartagineses, solicitaram a paz desaconselhada pelo próprio cônsul cativo que, sob palavra, veio a Roma como um dos embaixadores do Estado rival.

O senhorio do mar

Régulo tachou de débil a situação de Cartago, mas sua velha superioridade naval e o elemento marítimo conspiraram ainda em favor da colônia fenícia. Os romanos experimentaram duras provações, perdendo com um dos seus cônsules quase cem embarcações, num encontro em Drépano — o Trápani de hoje —, promontório da Sicília ocidental (249 a. C), e com o outro cônsul mais de 900 galeras e transportes numa furiosa tempestade. Tantas desventuras não abateram porém o gênio militar romano, feito de orgulho e de obstinação. Organizou-se por meio de uma subscrição particular outra esquadra de 200 navios, que em 241 a. C. bateu a esquadra cartaginesa de modo a obrigar Cartago a pedir a paz, a qual obteve renunciando à Sicília, entregando os prisioneiros menos Régulo, supliciado ao volver escravo do seu compromisso, e pagando uma indenização de 3 200 talentos, que eram 16 milhões de cruzeiros da nossa moeda atual.

 

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