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Insurreição dos mercenários cartagineses. Amílcar

Assim concluiu, mau grado a capacidade de Amílcar Barca, a primeira guerra púnica, com a transferência do senhorio do mar de Cartago para Roma. Durante 23 anos as duas grandes inimigas prepararam-se cuidadosamente para nova e decisiva luta pela supremacia comercial, tanto mais instante quanto a Grécia cessara de contar como potência naval e Alexandria apenas ensaiava o vôo como empório mercantil e centro de cultura. O conflito entre árias e semitas ia atingir o máximo de intensidade dramática.

Incorporação da Sicília, Sardenha, Córsega e planície do Pó

Começava a expansão romana, confirmando-se o dito francês de que o apetite vem com o comer. A Sicília foi a primeira província romana extra-itálica, governada por um magistrado exercendo funções simultaneamente civis e militares e pagando à metrópole um tributo anual. A Sardenha, outra das possessões cartaginesas, foi ocupada, bem como a Córsega, formando ambas uma província romana (227 a. C); os piratas da Ilíria, que infestavam o Adriático, foram punidos, e no norte da península, a autoridade da metrópole do Tibre estendeu-se dos Apeninos e do Rubicon ao sopé dos Alpes, derrotando em Telamón (225 a. C.) os gauleses que se tinham adiantado até a Etrúria, e semeando a planície do Pó de colónias latinas. Nesta direção alpina avançou entretanto a grande estrada militar que era a via Flamínia.

 

Enquanto a Itália deste modo se completava ao mando de Roma Cartago sofria os horrores da insurreição. Aos mercenários, descontentes após a entrega da Sicília com a falta de pagamento, juntaram-se as tribos africanas subjugadas. Não fosse o valor de Amílcar e Cartago teria nessa ocasião soçobrado: esse general entretanto não só aí restabeleceu a ordem como passou à Espanha, onde aplicou seu talento administrativo a agrupar em um Estado as tribos celtibéricas destinadas na sua concepção a competir com as legiões romanas, e explorou as minas de ouro e prata do sul da península, fundando Nova Cartago ou Cartagena.

Asdrúbal e Aníbal.

Morto em batalha no ano 228 a. C, teve um excelente continuador no seu genro Asdrúbal e o melhor dos sucessores no seu filho Aníbal, que com êle deixara menino a pátria. O domínio cartaginês foi dilatado até o Ebro, encontrando porém em Sagunto a oposição de Roma, que tomara esta antiga fundação grega e outras cidades’scb sua proteção. Apesar da injunção em contrário, Aníbal cercou e tomou Sagunto (219 a. C), o que determinou a segunda guerra púnica.

A segunda guerra púnica

No dizer do historiador romano Tito Lívio, era o moço chefe cartaginês temerário em afrontar o perigo e contudo frio quando o divisava, infatigável no trabalho, sóbrio, resistente a todas as privações, o primeiro a entrar em combate e o último a deixá-lo. Êle concebeu o audacioso projeto de atacar Roma por terra, descendo do norte e para isto não hesitou em atravessar os Pireneus e os Alpes. Contava então Aníbal 26 anos. Dos 60 000 soldados com que partiu (historiadores há que dizem 100 000), apenas uns 25 000 emergiram cinco meses depois dos desfiladeiros alpinos mercê das lutas e dificuldades da expedição, quando o inimigo podia alistar, no cálculo dos eruditos, 700 000 infantes e 70 000 cavaleiros.

Legionários romanos. Plástica no Museu do Louvre. Po

Estátua do "bom pastor", obra-prima dos primeiros tempos do cristianismo. Começo do see. IV d. C.

 

Planta do túmulo dos Cipiões, perto de Roma.

Roma pensara por seu lado em atacar Cartago na África e na Espanha e seus cônsules tinham partido com esse duplo destino; mas, diante daquele inesperado movimento, o exército de Semprô-nio, que tomara o caminho da Sicília, foi chamado a defender a península, a qual por sua vez Cipião veio defender, tendo sabido em Marselha da marcha de Aníbal e deixando em todo caso seguir seu exército para a Espanha, a fim de impedir a saída de reforços para os cartagineses. A estes foi a guerra de começo toda favorável, graças ao gênio de Aníbal, e assim continuou por bastante tempo, pois que quinze anos pelejou êle na Itália.

Na margem do Tessino a cavalaria romana foi desbaratada pela cavalaria númida; no Trébia, onde a Cipião já se reunira Semprô-nio com seu exército, as forças romanas foram quase destruídas numa emboscada (218 a. C), e na primavera imediata o exército de Aníbal, reforçado por gauleses, infligiu ao poderoso inimigo, comandado pelo cônsul Flamínio, nova e séria derrota à beira do lago Trasimeno na Etrúria. Em Roma a consternação foi imensa e o receio levou até a destruírem-se as pontes, sendo Fábio Máximo nomeado ditador para a emergência.

A passagem dos Alpes

Aníbal não achou porém prudente o assalto a uma cidade fortificada, temendo desmoralizar suas tropas com um fracasso; preferiu tomar o rumo do sul, passando bem ao largo de Roma pela costa do Adriático e entrando na Apúlia. Seu plano era levantar cidades onde suspeitava ser medíocre a afeição pelo Estado dominador e cercá-lo por meio de uma confederação hostil. Sua política de "isolamento" não deu todavia o resultado esperado. As colônias latinas desempenharam perfeitamente o papel que lhes andava atribuído: nenhuma abriu suas portas ao cartaginês e todas se prepararam para ajudar a resistência romana. Fábio Máximo entretanto, com sua tática contemporizadora que lhe valeu o cognome de Cunctator e que consistia em molestar o exército inimigo sem contudo aceitar batalha campal, insensível às depredações praticadas e aos incêndios ateados, salvou sua pátria da ruína.

A derrota de Canas

Esta teria sido fatal se o ditador fosse, como era certo, vencido enquanto se não organizava novo exército, que foi o mais considerável até então levantado pelos romanos e constava de 80 000 homens, os quais foram envolvidos por um golpe de mestre e vergonhosamente batidos em Canas, na Apúlia, pelos soldados de Aníbal, embora não somando metade daquele efetivo (216 a. C). As legiões romanas penetraram além das linhas inimigas, mas viram-se expostas nos flancos e na retaguarda à esplêndida cavalaria africana, combatendo de encontro ao sol e contra nuvens de poeira e achando-se em formação tão cerrada que mal podiam os legionários servir-se das suas espadas.

As delicias de Cápua

Poucos, 10 000 ao que se diz, escaparam ao desastre e o pânico que dominou Roma era presságio seguro de capitulação, se Aníbal a houvesse logo atacado. As cidades e tribos do sul entraram a desligar-se da união com Roma: no entanto Aníbal preferiu oferecer paz, que foi recusada, e invernar em Cápua, cujas "delícias" ficaram para sempre memoráveis para significar o quebrantamento da ener-yia pelos prazeres materiais. Aníbal invocava a necessidade de refa-zer-se seu exército e de aguardar reforços, mas ó possível que os seus mercenários sentissem irresistivelmente o apelo daquelas delícias, em que se engolfaram tanto que não puderam enfrentar os romanos quando estes chamaram a si a ofensiva.

A ofensiva romana

Siracusa, que desertara com toda a Sicília a causa romana, foi severamente castigada: rendeu-se depois de um sítio de três anos para ser entregue ao saque (212 a. C). Outro tanto sucedeu a Cápua, sendo os principais cidadãos executados e em grande número vendidos como escravos os habitantes (211 a. C). Aníbal não conseguiu salvá-la com a diversão que operou, indo acampar a 6 ou 7 quilômetros de Roma, onde por longos anos serviu de espantalho o grito de — Hannibal ad portas —. Faltavam-lhe todavia os engenhos de guerra indispensáveis para o sítio de uma praça forte.

Aliados e reforços

A sorte da guerra tinha aliás radicalmente mudado. Uma aliança com os gregos, com Atenas particularmente, manteve em xeque o rei Filipe V da Macedónia, que fizera causa comum com Cartago. O irmão de Aníbal, também de nome Asdrúbal, que ficara na Espanha pelejando contra as forças romanas para ali destacadas, quis acudir aos que lutavam na Itália e, estando com Roma o senhorio do Mediterrâneo, tomou o mesmo caminho que Aníbal, descendo os Alpes em 207 a. C.

A Vitória de Metauro e a transferência da guerra para África

Roma parecia exausta. As terras em redor estavam devastadas; seus melhores generais e a flor dos seus soldados já tinham sido sacrificados; até as fiéis colônias latinas entravam a recusar auxílios. Num supremo esforço pôde ela porém reunir 150 000 homens. Aníbal avançou de Brutium ao encontro do irmão, mas os romanos, tendo capturado os mensageiros de Asdrúbal e obtido conhecimento dos seus planos, obstaram à junção e no Rio Metauro alcançaram brilhante vitória. Asdrúbal caiu morto na peleja e sua cabeça foi sacudida como um troféu no acampamento de Aníbal, o qual recuou para o ponto donde se adiantara, obedecendo logo depois ao chamado de Cartago quando Roma transferiu para África a guerra, sob o comando de Públio Cornélio Cipião, mais tarde denominado Africano e filho do cônsul com quem combatera Aníbal.

A batalha de Zama. Fim de Aníbal e Cipião

A batalha de Zama (202 a. C.) foi contrária aos cartagineses. Seu grande capitão aí sofreu a primeira derrota e, pior do que isso, a humilhação de negociar uma paz imposta pelo vencedor. Essa derrota foi também a última porque tempos depois, tendo Roma reclamado a entrega do seu esforçado inimigo e temendo êle que a concedesse a facção política de Hanon, a qual já lhe negara os reforços pedidos da Itália, fugiu para a Ásia Menor, onde instigou o rei Antíoco contra os romanos e acabou por se suicidar, envenenando-se (183 a. C). No mesmo ano faleceu Cipião, exilado de Roma por motivo da acusação que levantara Catão, o censor, de ter êle vendido a paz ao mesmo Antíoco. Em Éfeso se encontraram e viveram algum tempo os dois antagonistas, sendo de lastimar que nos não tivessem sido conservadas suas conversações. No decorrer de uma delas, reza a tradição que Aníbal dissera ao seu rival vitorioso que se consideraria o maior homem de guerra até então existente se o houvesse podido vencer.

Tratado de paz

Pelo tratado de paz que pôs termo à segunda guerra púnica, Cartago renunciou a todos seus direitos sobre a Espanha e as ilhas do Mediterrâneo, ficando assim Roma senhora da bacia ocidental; entregou seus elefantes e suas galeras de guerra, queimando os romanos 500 destas embarcações; pagou uma indenização de 4 000 talentos (cerca de 20 milhões de cruzeiros) e comprometeu-se a pagar anualmente, durante 50 anos, 200 talentos e a não hostilizar aliado algum de Roma.

Roma no Oriente

A ocupação cartaginesa deixara a Itália devastada e aumentados os latifúndios pela emigração forçada dos camponeses para as cidades muradas, que tanto fêz crescer o número dos sem trabalho, tão facilmente descontentes. Roma porém embriagara-se de poderio. Na bacia oriental do Mediterrâneo seu domínio tomou-se igualmente supremo no meio século que mediou entre a paz e a terceira guerra púnica.

O povo romano foi o verdadeiro herdeiro de Alexandre. A Macedónia, aliada de Aníbal, foi duas vezes punida (197 e 168 a. C), transformada como Cartago em aliada sujeita, não podendo fazer guerra sem o consentimento de Roma, e por fim, com a Tessália, reduzida a província romana (146 a. C). A Síria do poderoso Antíoco foi detida na sua expansão e grande parte da Ásia Menor convertida em protetorado (190 a. C). A Grécia, libertada da tutela macedônica, mudou apenas de tutor e vimos como a feriu de morte a destruição desapiedada de Corinto (146 a. C). Vingou contudo seu fado com impor à sociedade romana, juntamente com a cultura helénica, radiosa na sua universalidade, os germes perigosos da depravação contidos no luxo e na relaxação dos costumes, que tamanha condenação mereceram de Catão, o censor, o qual dizia num discurso que receava muito que, em vez de os romanos conquistarem suas possessões, estas os tivessem conquistado.

Delenda Carthago

O ano da destruição de Corinto foi também o da destruição de Cartago, cuja prosperidade comercial, graças a uma situação geográfica privilegiada entre 300 cidades fenícias do litoral africano do Mediterrâneo, se refizera depressa demais para o gosto dos romanos. Daí o brado de delenda est Carthago, primeiro proferido e repetido no fim de cada discurso pelo censor Catão, depois que esteve em África. A luta entre a rival abatida de Roma e o rei da Numídia, Massinissa, adrede açulado para ocupar território cartaginês, ofereceu o pretexto para a intervenção maculada pela perfídia, desta vez romana, com que foram exigidos 300 reféns das melhores famílias cartaginesas, depois que Cartago, no intuito de evitar represálias, mandou executar os seus próprios generais da guerra contra a Numídia, e por fim exigida a entrega das armas a troco de ser respeitada a independência da cidade, a qual entretanto era mandada arrasar, devendo seus habitantes mudar-se para um local afastado da costa.

Numância e Viriato. Sujeição da Espanha

Diante desta contingência, Cartago decidiu lutar e realizou prodígios nos preparativos de defesa, improvisando manufaturas de armamentos e engenhos de guerra e derretendo até os vasos sagrados dos templos. A resistência durou quatro anos, cedendo quando a população já se achava reduzida de 700 000 a 50 000 habitantes. Durante 17 dias a orgulhosa pátria de Aníbal foi pasto das chamas e desapareceu da história para ressurgir, como cidade romana, em local mui próximo do antigo, por mandado de Augusto (29 a. C). Esta segunda Cartago foi destruída pelos árabes no ano 638 da era cristã.

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