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Visigodos, ostrogodos e hunos

A este príncipe, guerreiro valoroso e administrador hábil, que ficou mais conhecido pelo seu apego ao paganismo, seguiram-se outros imperadores proclamados pelas legiões. Valentiniano associou ao império seu irmão Valente e deteve no Ocidente as incursões dos bárbaros, que tinham passado as fronteiras; mas Valente, no Oriente, foi menos vigoroso ou menos feliz. Permitira ele aos visigodos, ou godos ocidentais, habitando ao norte do Danúbio, atravessarem este rio e instalarem-se debaixo da proteção romana na Trácia e Mésia, quando se viram atacados pelos hunos que, tendo passado o Don, incorporaram os ostrogodos, ou godos orientais, ocupando as terras ao norte do Mar Negro entre esse rio e o Danúbio (375-376).

A batalha de Andrinopla

Valente ordenara que lhes fossem tomadas as armas, o que todavia se não efetuou porque os funcionários romanos se deixaram subornar, não se contendo entretanto nas suas exações com relação aos refugiados, despojando-os dos seus valores, negando os prometidos fornecimentos de víveres e pretendendo até assassinar-lhes os chefes. Irritados por tal proceder ou querendo simplesmente eximir-se ao tributo, os visigodos, que somavam 200 000 guerreiros — alguns chegam a dizer 1 000 000 com as mulheres e escravos — revoltaram-se e marcharam sobre Constantinopla, apesar de terem entregado os filhos como reféns e penhor da sua ocupação pacífica. Valente travou batalha perto de Andrinopla antes de chegarem as legiões ocidentais, sendo vencido e morto (378).

Teodósio e os visigodos

A batalha de Andrinopla revelou aos bárbaros que eles podiam desbaratar os romanos em peleja campal. A barreira do Danúbio ficou desde então aberta à inundação, que Teodósio logrou sustar concedendo terras aos visigodos e alistando-os nas suas legiões com o nome de aliados — duas coisas que encerravam graves perigos para a futura segurança do império. Já nessa ocasião os bárbaros vencedores se tinham espalhado na direção do Adriático, cobiçando a Itália de céu clemente onde pouco depois os devia guiar o jovem Alarico, por eles aclamado rei, levantando-o sobre os escudos. Esses bárbaros batalhadores, glutões, bebedores, jogadores, mas respeitadores da palavra dada, assimilando facilmente o progresso, desejavam novos lares em melhores climas: não lhes bastava mais a caça nas suas florestas úmidas e a pesca nos seus rios brumosos. Alarico por si entendia que devia não servir a Roma, mas assenhorear-se dela.

Divisão permanente do imperio

Teodósio, o Grande, conseguiu não só pacificar o império como reunir suas duas seções, que não constituíam aliás dois impérios mas um só, governado por dois soberanos pelas conveniências da administração. Esta reunião teve lugar nos três últimos anos do seu reinado, de 392 a 395. Por ocasião da sua morte e segundo sua vontade, o império, ainda nominalmente uno, foi dividido entre seus dois filhos: o do Ocidente, que coube a Honório, apenas durou até 476; o do Oriente, que coube a Arcádio, durou mil anos mais, até 1453.

Alarico e Stilico

Os visigodos, uma vez comandados por Alarico, não ousando assaltar Constantinopla, devastaram a Grécia no próprio ano do falecimento de Teodósio. Daí os expulsou Stilico, general vândalo ao serviço de Honório, e os perseguiu na Itália quando eles a invadiram, reunindo para isso todas as legiões que pôde convocar e baten-do-os em Polência e Verona (402-403). Alarico teve que retroceder com os destroços do seu exército pelos desfiladeiros dos Alpes e Stilico, salvador em toda a Itália, entrou triunfalmente em Roma (404). Foi o último triunfo a que a cidade assistiu, com o último combate de gladiadores, cruel diversão a que o cristianismo era infenso e que o paganismo favorecia como animando o espírito marcial entre o povo e sobretudo entre os soldados, pelo que eram dados tais espetáculos às legiões que partiam em campanha. Constantino foi o primeiro imperador a condenar esses jogos de circo desde 325, se bem que só tivessem eles sido abolidos depois que a plebe, enfurecida e em seguida arrependida, sacrificou um monge cristão que se opunha aos combates humanos.

Honório e suas perversidades

Honório, suspeitoso ou receoso do seu general vândalo, talvez simplesmente invejoso do seu prestígio, acusou-o de traição e mandou executá-lo. Logo depois o mesmo imperador ordenou o massacre das mulheres e filhos dos godos das suas legiões, que se conservavam como reféns em diferentes cidades da Itália, fato que provocou a revolta daqueles mercenários, os quais somavam 30 000. Os godos transalpinos juntaram-se-lhes para vingarem essa barbaridade, e Alarico, transpondo de novo os Alpes, chegou às portas de Roma e pôs cerco à cidade, que capitulou pela fome. O resgate exigido foi pago, para isto entregando-se até os tesouros dos templos e fundin-do-se as estátuas dos deuses; mas Roma afinal não se livrou do saque, por causa da recusa imperial de conceder terras a esses bárbaros.

O saque de Roma

Honório, seguro em Ravena, julgou poder tratar com desprezo Alarico e diz-se mesmo que fêz traiçoeiramente atacar o campo dos visigodos, já depois de firmada a paz. A resposta do chefe bárbaro foi o saque de Roma, que os apologistas do paganismo apontaram como o castigo infligido pelos deuses aos romanos pelo repúdio das crenças dos seus maiores, e que os cristãos apreciaram como a realização da profecia das escrituras sagradas sobre a destruição da Babilônia do Apocalipse. A obra de Santo Agostinho — A Cidade de Deus — versa sobre essa controvérsia.

Morte de Alarico

De Roma seguiu Alarico para o sul da península, devastando as vilas dos ricos romanos, esvaziando suas despensas e suas adegas. O Falerno era bebido em taças cravejadas de jóias que se arrecadavam por lembrança. Alarico, que era cristão, mandara contudo em Roma respeitar as igrejas e sua propriedade e abster-se de derramar sangue. Sua idéia era a conquista da Sicília, porventura do Norte da África, mas a morte ceifou-o a caminho, perto do Rio Bus-sento, na Calábria. Seus companheiros, segundo reza a tradição, fizeram por meio dos prisioneiros romanos que arrastavam no seu encalço, desviar o curso do rio, em cujo leito o sepultaram, montado no seu cavalo de batalha e rodeado de troféus. Uma vez recoberta a sepultura, deixaram o rio retomar o seu curso natural e imolaram os prisioneiros incumbidos da tarefa, para que ficasse sempre ignorada e livre de profanações a derradeira morada do conquistador (410), no mesmo ano do saque de Roma.

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