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Quem era Sila

Sila era um patrício pobre e ambicioso, de cultura epicurista e gostos dissipados, cínico e mundano, letrado e cruel, descrente e supersticioso. Tomara parte na guerra contra Jugurta na qualidade de ques-tor, mas disputava a Mário a glória da sua conclusão, porque êle fora quem obtivera a entrega do rei da Numídia, refugiado na corte de seu sogro, o rei da Mauritânia, e condenado pelos romanos a morrer de fome. Pelejara também contra os cimbros, governara a Cilicia, donde voltara rico pelas suas extorsões, e fora o vencedor da guerra social.

Quem era Mário. Suas reformas

Mário era de uma família de camponeses, o tipo do velho romano, sem cultura e sem mesmo querer possuí-la, afeito às lides agrícolas e militares, honesto e industrioso. O exército passou nas suas mãos — foi cônsul sete vezes — por uma transformação radical na sua organização. Foram abolidas as três linhas, sendo os soldados igualmente equipados, e não podendo o recrutamento verificar-se numa classe média que as guerras sucessivas tinham quase feito desaparecer, passou a ser feito entre o proletariado. Os soldados, armados pelo Estado, ficaram-no sendo de profissão, constituindo um exército permanente devotado aos seus generais e cujo tempo de serviço era por via de regra de 20 anos. A própria cavalaria passou a ser tirada de todas as classes, não só da primeira, formando um corpo de escol particularmente devotado ao general, um embrião de guarda pretoriana. O emblema da legião passou a ser a águia, ficando a loba como o emblema da centúria, pelo que escreve Mommsen que as águias de Mário anunciavam os Césares.

 

 

Moeda criada pelo cônsul romano Cina.

 

 

Aristocracia

A Sila, que era então cônsul, foi dado pelo senado o comando do contra exército contra Mitridates. Mário fez porém adotar pela assembléia popular uma resolução contrária e revolucionária na essência, pela qual lhe era confiada a campanha. Sila acampou com suas legiões dentro dos muros da cidade, o que não era menos revolucionário, e fêz condenar o rival antes de embarcar para a Ásia. Mário, que lograra escapar à morte, regressou da África, onde se acoitara, e na ausência de Sila, de parceria com o cônsul Cina, sujeitou o partido senatorial, reduzindo a cidade pela fome e ordenando uma terrível carnificina de aristocratas, que durou cinco dias e cinco noites. Dela foi a primeira vítima o cônsul Cnaeus Otávio, cuja cabeça esteve exposta diante dos rostros. Proclamados cônsules, sem eleição, Mário e Cina, aquele só gozou dias dessa sétima renovação do mandato, sobrevindo seu falecimento (86 a. C).

Sila foi como sempre feliz nas suas operações militares. Com forças muito inferiores bateu o rei do Ponto em Cheronéia, ocupou a Trácia, invadiu a Grécia, tomou Atenas e transferiu a guerra para a Ásia Menor, obrigando Mitridates a renunciar às suas conquistas, entregar a esquadra e pagar uma indenização (86-84 a. C).

Democracia

O massacre dos italianos fora em 88 a. C. e Sila estava de volta para tomar sua vingança em 83 a. C, entrando em Roma à viva força depois de desbaratadas as tropas democráticas aliadas aos samnitas. A desforra foi horrenda. Os principais partidários de Mário foram postos fora da lei; milhares deles figuraram nas listas de proscrição que durante algum tempo apareceram diariamente, sendo lícito a qualquer matar os que constavam do rol; suas cabeças eram mesmo postas a preço e seus bens confiscados.

As proscrições de Sila. Reinado do terror

Gente de fortuna toda ela, cidadãos importantes, eram executados muitos por simples cobiça das suas riquezas nutrida pelos favoritos de Sila, que também incluíam nas listas seus inimigos pessoais, fazendo não poucos devedores outro tanto com seus credores. Algumas das grandes fortunas do fim da república tiveram sua origem nessa espoliação em massa. Foi uma época de terror que deixou um legado de ódios. No pórtico de Sila via-se cada manhã um montão de cabeças. Estas lutas civis custaram a vida a 150 000 cidadãos romanos, inclusive 200 senadores.

Júlio César, parente de Mário, o qual desposara uma sua tia, e então mancebo, de 18 anos, foi poupado pela intervenção de amigos de Sila, o qual só a contragosto se deixou levar a esse ato de clemência que o seu pressentimento lhe advertia ser perigoso. Os bens das vítimas eram levados a leilão ou diretamente distribuídos entre os algozes.

A ditadura e a constituição patrícia

Sila foi empossado pelo senado numa ditadura contínua em 81 a. C, com poderes para reformar a constituição a seu bel-prazer, do que êle se aproveitou para favorecer os interesses do patriciado, robustecendo a autoridade do senado, conferindo-lhe de novo as atribuições judiciárias e cerceando os poderes do tribunado. Após três anos de despotismo (78 a. C.) o ditador renunciou voluntariamente o mando para se mostrar coerente com sua preferência pelo governo oligárquico. O resultado porém foi que cessou em Roma a vida constitucional, iniciando-se o regime das surpresas.

Sertório e Pompeu

A guerra entre partidários de Mário e Sila prolongou-se na península hispânica onde Sertório, um dos mais hábeis e retos dos chefes democráticos, ofereceu prolongada e vitoriosa resistência às armas senatoriais (77-72 a. C). Chamado pelos lusitanos a comandá-los, foi estabelecer-se em Évora e tão bem organizou suas forças, que bateu os melhores generais romanos e o próprio Pompeu, que nunca exercera cargo público, mas que se distinguira por tal forma ao lado de Sila na guerra civil, que merecera as honras do triunfo e merecera sobretudo que, não obstante sua mocidade, Sila o denominasse o grande. Feito procônsul e mandado a subjugar a península ibérica, não conseguiu propriamente abater o adversário, pois que só o assassinato de Sertório por um dos seus oficiais pôs termo a uma luta que, na frase de um historiador, teve mais o caráter de uma guerra nacional do que de uma contenda civil, procurando os lusitanos recobrar sua independência e buscando os romanos reaver uma província perdida.

A revolta de Espártaco

Dentro da península itálica os gladiadores gauleses de Cápua, que eram escravos adestrados em escola profissional para distração do povo nos sangrentos jogos públicos, revoltaram-se à instigação do escravo trácio Espártaco e formaram na cratera do Vesúvio o que chamaríamos um quilombo que, com os fugidos dos grandes domínios agrícolas, os criminosos e os camponeses na miséria, chegou a contar 150 000 almas e a estender-se por boa parte da Itália meridional, desafiando durante três anos o poder romano (73-71 a. C).

Crasso, à testa de seis legiões, venceu-os em sucessivos combates, só duma vez crucificando 6 000 na via Ápia, e Pompeu, volvendo da Espanha, exterminou os últimos bandos que tratavam de escapar-se para a Gália. No ano imediato (70 a. G), Pompeu e Crasso eram cônsules.

O procônsul Verres e as Verrinas

Fora da Itália, as exações e roubos dos governadores de províncias tinham crescido tanto que provocavam protestos. Verres é o tipo do administrador desabusado e cruel, vendendo os cargos e as suas sentenças como propretor, arrancando aos agricultores sua produção para se locupletar dispondo dela em Roma, confiscando quanto lhe apetecia nos templos e nas casas particulares. Com suas ladroeiras a Sicília ficou limpa. De uma feita, suprimiu mês e meio do ano para apressar a época da cobrança dos impostos; doutra, interceptou e apropriou-se dos presentes mandados por Antíoco da Síria ao senado romano; chegou a despojar Júpiter do seu manto de ouro e substituí-lo por um capote de lã com o qual, segundo êle, melhor se agasalharia o pai dos deuses. Verres dizia que, quando fosse preciso, distribuiria pelos juízes e advogados dois terços da sua fortuna, bastando-lhe amplamente o restante. Foi mais ou menos o que aconteceu. Acusado perante o senado por Cícero, que começava a aparecer e nesta causa ganhou sua reputação, a argumentação cerrada e a massa de provas exibidas produziram tal emoção que Verres antecipou seu plano e fugiu para Marselha a gozar longe o seu pecúlio. As Verrinas nunca foram proferidas, sim distribuídas.

 

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