Textos Introdutórios - resumos, ebooks, artigos acadêmicos
- REGATÕES – Região Amazônica do Brasil
- TIRADOR DE CAROÁ – Ney Strauch
- CASTANHAIS NO AMAZONAS
- CAMPOS DO RIO BRANCO – Amazônia – Região Norte do Brasil
- AS DIFERENTES NARRATIVAS: MITOLOGIA, RELIGIÃO E FILOSOFIA
- a) A relação de expressividade, típica do mito. Neste caso, há uma identidade entre o signo e o significado; os símbolos tornam-se atributos da própria coisa que designam, como a cruz representa o cristianismo, por exemplo.
- b) A relação de representação, caracterizada pela linguagem. Aqui o nome é uma convenção e servepara representar a coisa, como um substantivo. É a maneira mais comum de como nos utilizamos das palavras que representam um ente.
- c) A relação de significado, típica da ciência. Há uma independência entre signo e significado. Exemplo disso é uma função matemática (signo), que representa algo diferente do deslocamento do planeta (significado).
- BARQUEIROS DO RIO SÃO FRANCISCO
- Produção de Açucar no Nordeste – Geografia brasileira
- SERINGUEIROS DA AMAZÔNIA – Tipos e Aspectos do Brasil
- PRECONCEITOS – Dicionário Filosófico de Voltaire
- INTRODUÇÃO À SABEDORIA – Juan Luís Vives
- A filosofia de Platão e conceito de justiça
- A história de Romeu e Julieta
- Uma lenda do Popol-Vuh (Livro Sagrado Maia – Guatemala)
- O MITO DE PROMETEU E PANDORA
- MITO DE OSÍRIS E ISIS – Mitologia Egípcia
- José Maria do Amaral.
- Firmino Rodrigues Silva e Álvaro Teixeira de Macedo – Literatura Brasileira
- A poesia de Francisco Bernardino Ribeiro, por Silvio Romero
- Odorico Mendes, tradutor da Eneida de Virgílio e Ilíada de Homero (Silvio Romero)
- Cândido José de Araújo Viana, Marquês de Sapucaí
- Salomé Queiroga e o plágio de Victor Hugo na poesia Brasileira, por Silvio Romero
- Antônio Peregrino Maciel Monteiro, 2.º barão de Itamaracá
- Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa
- TERCEIRA FASE DO ROMANTISMO: O SUBJETIVISMO DE ÁLVARES DE AZEVEDO E SUA PLÊIADA
- GONÇALVES DE MAGALHÃES E SEU GRUPO – Primeira fase do romantismo
- O ROMANTISMO NA LITERATURA BRASILEIRA – Silvío Romero
- Idealismo e Hegelianismo na Inglaterra
- Ernst Cassirer e neokantismo alemão
- Benedetto Croce e G. Gentile – Idealismo na Itália
- O Idealismo francês

REGATÕES José Veríssimo da Costa Pereira O DEVASSAMENTO e a conseqüente forma do povoamento na região amazônica não são apenas o resultado da audácia e do espírito de aventura dos conquistadores luso-brasileiros, nos séculos passados. São ainda um corolário da função antropogeográfica dos rios, numa região de floresta espessa, maciça, em muitos pontos impenetrável, porém [...]

Tipos e aspectos do Brasil – coletânea da Revista Brasileira de Geografia Fonte: IBGE – Conselho Nacional de Geogragia. 8ª edição. Rio de Janeiro, 1966. TIRADOR DE CAROÁ Ney Strauch NA AGRESSIVIDADE de sua paisagem, nem sempre o sertão nordestino é ingrato ao homem que nele habita. O clima é seco, de chuvas irregulares e [...]

Ebook de geografia – Tipos e aspectos do Brasil – coletânea da Revista Brasileira de Geografia Fonte: IBGE – Conselho Nacional de Geogragia. 8ª edição. Rio de Janeiro, 1966. CASTANHAIS José Veríssimo da Costa Pereira DE VINTE a trinta quilômetros da margem do rio Amazonas e também às margens do Alto Beni, na bacia do [...]

Ebook de geografia – Tipos e aspectos do Brasil – coletânea da Revista Brasileira de Geografia Fonte: IBGE – Conselho Nacional de Geogragia. 8ª edição. Rio de Janeiro, 1966. CAMPOS DO RIO BRANCO José Veríssimo da Costa Pereira DE MODO geral, o termo "campo" no Brasil designa a área descoberta que não possui floresta. Tal [...]
Ricardo Ernesto Rose
Jornalista e Licenciado em Filosofia
“Baixinho,
a argila segredou
ao oleiro que a trabalhava:
“Não esqueças
Que já fui como tu…
Não me maltrates…”
Omar Kháyyám -Rubáiyat
O filósofo alemão Ernst Cassirer defendia a tese de que todo conhecimento – mítico, religioso e científico – é um conhecimento simbólico. Explicando seu pensamento, o filósofo apresenta uma tripla graduação na relação entre signo e significado:

O S TIPOS sertanejos das margens do São Francisco não resultam apenas do caldeamento dos elementos que compuseram a população do vale do grande rio. Decorrem também dos diferentes “gêneros de vida” a que foram levadas aquelas populações ao entrarem em contacto com um meio físico diverso.
Se as condições do meio físico acabaram por definir — no tempo e no espaço — cada tipo social já esboçado pelas circunstâncias da economia da época, a sua estruturação resultou, no fundo, da função antropogeo-gráfica do rio, que o espírito de aventura cedo descobriu.

O S ENGENHOS de rapadura acrescentam à paisagem nordestina uma de suas características mais expressivas, onde o homem, completando o pitoresco da cena na faina rudimentar em que o sol o encontra desde cedo, arrastando um cansaço que os séculos testemunham, dando curso ao sentido peculiar de sua vida, sua arte e seus sentimentos, restringe-se à função de complemento calmo, subjugado, que os olhos do forasteiro desfrutam numa idealização edênica.
José Veríssimo da Costa Pereira
SlGNIFICANDO formas de civilização decorrentes da cooperação da natureza e do homem, os conceitos de gêneros de vida e de horizontes de trabalho encontram, na planície amazônica, especialmente nas terras baixas do Solimões e nas dos afluentes da margem direita, a montante do Madeira, todo o seu interesse geográfico sintetizado no ajustamento do "seringalista", a um quadro, cuja fisiografia uniforme tem, como um dos seus corolários, a simplicidade da vida econômica.

Preconceitos históricos
A maior parte das histórias formaram-se sem exame e tal crença é um preconceito. Fabius Pictor conta que vários séculos antes de ele existir, uma vestal da cidade de Alba indo buscar água com seu jarro, foi violada e deu a luz a Rómulo e Remo, sendo eles alimentados por uma loba, etc. O povo romano acreditou nessa fábula; não examinou, absolutamente, se naquele tempo havia vestais no Lácio; se era verossímil a filha de um rei sair do convento com seu jarro; se era provável uma loba aleitar duas crianças em lugar de devorá-las. O preconceito firmou-se.

JUAN LUÍS VIVES (1492-1540)
Nasceu em Valência. Começou os estudos na Espanha, e os acabou ouvindo os mestres das Universidades de Paris, Bruxelas e Lovaina. Nesta última chegou a leccionar grego e latim, as ciências do seu tempo, e literatura.
Foi ainda catedrático na Universidade de Oxford. Conviveu com os mais notáveis intelectuais do seu tempo. Foi familiar de Nebrija e Erasmo, que disse dele: "Não encontro neste século ninguém com quem possa compará-lo".
a filosofia de Platão e conceito de justiça
Gisele Leite
Refletir sobre Platão pode
ser um grande desafio mesmo nos dias de hoje. Não resta dúvida de que Platão é
mesmo considerado o pai da herança intelectual ocidental, um pensador que
posicionou a Filosofia em direção que até hoje é seguida, dois anos depois…
Itália
Em -parte alguma do mundo seria necessário explicar a origem de Romeu e Julieta, os infelizes amantes de Verona. Antes, porém, que o gênio de Shakespeare se apoderasse da história que corria na boca do povo humilde, e dela fizesse o monumento literário que conhecemos, era assim, singelamente, que se passava de pais a filhos a triste história das jovens vítimas que redimiram, com o seu amor imortal, a longa herança de sangue e de ódio que lhes roubou a vida.
ROMEU E JULIETA
COMPRIDA é a história dos ódios entre os Capuleti e os Montecchi. Tais ódios ti nham origem em qualquer remota afronta; talvez um homicídio. Era uma série jamais acabada de encontros, punhaladas, duelos, espadas em punho…
Uma lenda do Popol-Vuh (Guatemala)
os AVÓS
ENTÃO não havia gente, nem animais, nem árvores, nem pedras, nem nada. Tudo era terra agreste, desolada e sem limites. Sobre as planícies o espaço jazia, imóvel, enquanto que, sobre o caos, descansava a imensidade do mar. Nada estava junto nem ocupado. O de baixo não tinha semelhança com o de cima. Coisa alguma via-se de pé. Sentia-se apenas a tranqüilidade surda das águas, que pareciam despenhar-se no abismo. No silêncio das trevas viviam os deuses chamados: Tepeu, Gucumatz, e Hurakan, cujos nomes guardam os segredos da criação, da existência e da morte, da terra e dos seres que a habitam.
O MITO DE PROMETEU E PANDORA (MITOLOGIA GREGA, A origem do fogo, do homem, do dilúvio)
ANTES que a terra e o mar fossem criados, todas as coisas tinham um só aspecto, ao qual damos o nome de Caos — massa confusa e informe, apenas peso morto, na qual dormitavam, entretanto, as sementes das coisas. Terra, mar e ar estavam todos juntos, misturados, de forma que a terra não era sólida, o mar não era líquido, e o ar não era transparente. Deus e a Natureza, por fim, interferiram, e puseram fim àquele desacordo, separando a terra do mar e o céu de ambos. A parte mais aquecida, sendo a mais leve, levantou-se, e formou o céu, sendo o ar o segundo em peso e colocação. A terra, pesada, desceu, e a água tomou o ponto mais baixo, fazendo flutuar a terra.
Egito
MITO DE OSÍRIS E ISIS
Osíris e Ísis foram induzidos a descer sobre a terra, a fim de espalhar dádivas e bênçãos sobre os seus habitantes. Isis ensinou-lhes, primeiro, o uso do trigo e da cevada, e Osíris fez os instrumentos de agricultura e ensinou aos homens como usá-los, assim como atrelar o boi ao arado.
Depois, deu leis aos homens, a instituição do casamento, uma organização civil, e explicou-lhes como deviam adorar os deuses.
Tendo, assim, feito do vale do Nilo uma região feliz, reuniu uma hoste, com a qual foi distribuir suas bênçãos ao resto do mundo. Conquistou nações por toda a parte, mas não com armas, apenas com música e eloqüência. Seu irmão, Tifão, viu aquilo, e encheu-se de inveja e malícia, procurando, durante sua ausência, usurpar-lhe o trono. Isis, porém, que mantinha as rédeas do governo em suas mãos, frustrou-lhe os planos.
Ainda mais amargurado êle resolveu matar o irmão, o que fêz da seguinte maneira:
Silvio Romero – História da Literatura Brasileira (ebook por capítulos)
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TRANSIÇÃO
POETAS DE TRANSIÇÃO ENTRE CLÁSSICOS E ROMÂNTICOS (continuação)
José Maria do Amaral. — Nascido em 1812,. foi diplomata e monarquista conservador, e muito mais tarde republicano extremado. Este ilustre velho, falecido em 1885, espalhou o seu pensamento por diversos jornais e periódicos. Desde os tempos da Regência foi mais ou menos assíduo na imprensa: o Correio Mercantil, o Correio Nacional, o Espectador da América do Sul, a Opinião Liberal, o Jornal da Tarde, o Globo, publicaram artigos seus. Além de jornalista político, foi poeta. Não deixou livros impressos.
Homem de espírito inquieto e paixões ardentes, passou por muitas tempestades.
O que havia de tumultuário em sua alma tomou a forma de paixão política. Daí certa animação de seu estilo na prosa dos artigos jornalísticos. O que nele havia de doce e amorável exalou-se num lirismo suave e meigo.
Silvio Romero – História da Literatura Brasileira (ebook por capítulos)
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TRANSIÇÃO
POETAS DE TRANSIÇÃO ENTRE CLÁSSICOS E ROMÂNTICOS (continuação)
Firmino Rodrigues Silva (1816-1879). — A literatura do Brasil é em grande parte, na máxima parte, uma colaboração de vadios, ou de infecundos.
Nas páginas de sua história há de figurar sempre e sempre um grande número de sujeitos que deixaram três ou quatro poesias, três ou quatro artigos de prosa, e nada mais.
Entre nós há tal poeta, cujo título de benemerência é uma só poesia. Odorico Mendes é o poeta do Hino à Tarde; Rodrigues Silva é o poeta da nênia Niterói. Como riscar este homem de nossa história literária, se sua produção maitresse é um dos mais saborosos frutos da poesia nacional?
Firmino Rodrigues Silva era fluminense, nasceu no ano de 1816. Estudou Direito em São Paulo, formando-se em 1837. Atirou-se à política, foi jornalista de algum mérito, ainda que inferior a Justiniano da Rocha. Era conservador e acabou senador do Império.
Francisco Bernardino Ribeiro. — Na série dos nossos poetas e escritores mortos em verdes anos ocupa este um lugar conspícuo. Faleceu antes dos vinte e três anos e teve tempo de estudar preparatórios, formar-se em Direito, defender teses para o grau de doutor, fazer concurso, tirar uma cadeira na Faculdade de São Paulo, escrever artigos e poesias pelos jornais!… Foi uma vida curta e demasiado cheia. Eis aqui as datas principais: nasceu aos 12 de julho de 1814; matriculou-se em São Paulo no curso jurídico em março de 1830; publicou a Voz Paulistana em 1831; formou-se em 1834; teve o grau de doutor em 35, foi nomeado lente em 36; faleceu no Rio de Janeiro a 15 de junho de 37. Era uma talento sério, inclinado aos estudos políticos e jurídicos; cheio de gravidade, não possuía a descuidosa e ardente imaginação de um grande poeta. Suas poesias são medíocres; declamatórias em essência, falta-lhes o sentimento artístico. Em poesia não ocultava suas preocupações doutrinárias. O fragmento seguinte põe a descoberto seus gostos, suas leituras prediletas na poesia e revela a intuição dominante em São Paulo em 1831. O poeta escreve a um companheiro :
Manuel Odorico Mendes (1799-1864), político, jornalista, literato, poeta, foi o patriarca da escola maranhense na literatura brasileira. Os seus pares foram Sotero dos Reis, Francisco Lisboa, Gonçalves Dias, Henriques Leal, Trajano Galvão, José Pereira da Silva, Franco de Sá e Gentil Homem de Almeida Braga.
Quando falo em escola maranhense não quero dizer que as mesmas idéias, as mesmas doutrinas, um corpo sistemático de opiniões, tivessem brotado ali e sido arquitetadas por aqueles obreiros. O laço que os prende é terem nascido na mesma terra e vivido quase todos no mesmo tempo.
Se entre Odorico e Sotero há igual entusiasmo pelas letras clássicas, entre eles e Franco de Sá ou Gentil Homem as intuições são mui diferentes. Gonçalves Dias na poesia e Francisco Lisboa na história ocupam uma posição à parte.
Em Odorico Mendes parece-me sobrepujar o patriota ao literato. Desde 1824 atirou-se ao jornalismo e à política ativa. No Maranhão e no Rio de Janeiro foi um dos homens mais influentes do período regencial e tinha sido um dos preparadores do Sete de Abril. Estava na corte nesse tempo e foi um dos organizadores da regência provisória. Não entra em meu plano escrever a história dos governos regenciais, nem mesmo fazer a biografia do poeta maranhense. Este último trabalho foi magistralmente levado a efeito por J. Francisco Lisboa e A. Henriques Leal.5
O decênio que vai de 1830 a 40, é a certos respeitos a época mais valor
POETAS DE TRANSIÇÃO ENTRE CLÁSSICOS E ROMÂNTICOS (continuação)
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TRANSIÇÃO
POETAS DE TRANSIÇÃO ENTRE CLÁSSICOS E ROMÂNTICOS
Bem diferente de Maciel Monteiro foi — Cândido José de Araújo Viana, Marquês de Sapucaí (1793-1875). — Magistrado, administrador, político, era pacato, moderado, tímido em demasia.
Escreveu muito pouco. Em prosa seu trabalho principal é o célebre artigo inserto no Correio Oficial de 28 de setembro de 1833, contestando os serviços de José Bonifácio à nossa independência política; em poesia os decantados versos à memória de sua filha. O artigo pode ser indicado como um dos mais limpos trechos do jornalismo político do tempo; é medíocre sem ter as grosserias e declamações então tanto em voga.4 Araújo- Viana era ministro quando o escreveu, por ocasião de ser deposto o velho Andrada do cargo de tutor do imperador.
É uma peça sem grande préstimo literário e de pouco alcance histórico.
Os versos são singelos e delicadíssimos. Por eles é que esse político tem um lugar neste livro.
O velho mineiro tinha uma filha, que havia plantado um canteirinho de violetas; antes que estas desabrochassem, morreu a moça. Sobre o seu túmulo foi o poeta depor as primeiras flores, quando abriram, e escreveu estes versos:
João Salomé Queiroga nasceu em 1810 ou 1811; morreu depois de 1880. Não seguiu o exemplo de seu irmão, que não publicou um só livro; ele publicou três: — duas coleções de poesias e um romance.
São publicações serôdias e tardias; mas têm préstimo; são de 1870 e 73; porém encerram versos de 1829. O prólogo do Canhenho de Poesias Brasileiras seria o prefácio de Cromwell do romantismo brasileiro, se fosse bem escrito e publicado oportunamente. Não apareceu a tempo; é, contudo, a fiel exposição do momento literário entre nós em 1830. Salomé Queiroga foi bom mineiro, não mudou; foi sempre o mesmo; o que escreveu em 1870, podê-lo-ia ter escrito quarenta anos antes.
É indispensável mostrá-lo, manuseando as provas: "Cerca de quarenta anos estão neste volume; a descrição de um grande e continuado dia de festa, com pequenos intervalos de sofrimentos. A rosa também tem espinhos. Menino travesso a correr atrás de borboletas que nunca chega a apanhar, mas divertindo-se com isso: eis a história de minha vida poética… O desejo de metrificar despertou-se em mim em o ano de 1828 na cidade de S. Paulo. Ali se achavam reunidos, além de estudantes de diferentes pontos do Brasil, alguns e não poucos, que voltaram de Coimbra para continuar seus estudos na Academia Jurídica que se acabava de instalar. Moços entusiastas entretinham-se em palestras políticas e poéticas… Por esse tempo fundou-se uma associação literária, denominada Sociedade Filomática, da qual coube-me a honra de ser um dos instituidores.
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TRANSIÇÃO
POETAS DE TRANSIÇÃO ENTRE CLÁSSICOS E ROMÂNTICOS
Se a história da literatura brasileira fosse um simples amontoado de notícias biográficas e a citação de alguns trechos poéticos, ela estaria feita no Parnaso de Cunha Barbosa ou no Florilégio de Varnhagen.
Mas se a própria história política vai já atendendo mais ao caráter psicológico dos povos do que aos fatos meramente exteriores, e, por assim dizer, materiais, ainda mais a história literária deve ter por missão penetrar no ideal das nações para surpreender-lhes a vida subjetiva.
Se, em quatro séculos de convivência com a civilização ocidental, o povo brasileiro, na esfera da arte das criações intelectuais, não tivesse feito mais do que plagiar, copiar sem critério os modelos europeus; se um caráter novo, se uma nova feição nacional não viesse sequer despontando, o povo brasileiro seria um produto artificial, cedo condenado à morte, e não valeria a pena escrever-lhe a história.
A quem percorre, é certo, uma dessas antologias de nossos poetas, um desses parnasos aí publicados, se depara o ainda incerto valor de nossas produções.
Autor: Silvio Romero (Lagarto, 21 de abril de 1851 — 18 de junho de 1914) – História da Literatura Brasileira
Vol. III. Contribuições e estudos gerais para o exato conhecimento da literatura brasileira. Fonte: José Olympio / MEC.
Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa (1812-1861). — Foi um mestiço, filho de uma pobre família de Cabo Frio, na província do Rio de Janeiro.
Tendo apenas o ensino das primeiras letras, foi forçado em 1822, por apertos pecuniários dos pais, a aprender o ofício de carpinteiro.
Neste mister, já em Cabo Frio, já no Rio de Janeiro, para onde passou-se em 1825, conservou-se até 1830. De volta então à sua cidade natal, foi nomeado mestre-escola, emprego que exerceu largos anos, sendo em 1855 despachado escrivão do comércio no Rio. Faleceu em 1 de dezembro de 1861.
Foi um homem ativíssimo e de muito bons desejos. É o nosso poeta artesão. Escreveu bastante, tentando gêneros diversos. Publicou duas ou três tragédias, um grande poema épico sobre a Independência do Brasil, uma espécie de poema lírico sobre uma tradição de sua terra, grande porção de cânticos líricos, e seis ou sete romances.
É uma bagagem literária assaz pesada e de um manejar dificultoso. É um grande inconveniente escrever muito, especialmente quando esse muito escrever não obedece a um plano e a uma idéia dirigente.
Torna-se a obra de um escritor desses um matagal daninho em que se perde improficuamente o leitor, e donde sai irritado o crítico, lastimando o precioso tempo perdido em atravessar matos e barrancos.
Causa dó a cegueira, a inópia de um escrevinhador, de um sporcatore di carta, gastador de tinta e papel…
O nosso Teixeira e Sousa não é precisamente um tão profuso e difuso produtor de livros. Mas teria andado bem em escrever menos. Nas letras as mais das vezes o silêncio é de ouro, e a sobriedade é sempre de brilhante.
As tragédias e o longo poema épico fazem mal à reputação literária de Teixeira e Sousa. Fora melhor que os não tivesse produzido. Quase o mesmo se pode dizer de seus fracos e enfadonhos cânticos líricos.
Postos estes produtos à margem, ainda restam o poema lírico e os romances do escritor para dar a medida e mostrar a índole de seu talento.31
Primeiro o poeta, e isto rapidamente.
31. Estes escritos de pouco valor sao as tragédias — Cornélia, O Cavaleiro Teutànico; as coleções de poesias sob o titulo de Cânticos Líricos; o poema épico denominado — A Independência do Brasil.
Quando digo que o poeta de Cabo Frio era bem intencionado, avanço uma verdade. Era patriota e nacionalista; forcejava por tomar parte nos esforços da geração de seu tempo no empenho de dotar o Brasil com uma literatura. Então não tínhamos ainda vergonha de ser brasileiros, sonhávamos ainda com a formação de uma pátria autônoma e progressiva. Como a mulher perdida que abre a sua porta ao primeiro viandante, o espírito nacional não havia ainda desesperado de si, não desejava ainda escancarar as nossas casas a quantos desconhecidos queiram tomar conta delas. Nacionalismo não era ainda sinônimo de atraso e emperramento; era apenas a salvaguarda das tradições, a consciência de um povo que se queria formar livre e forte, aproveitando as lições das nações cultas, sem perder sua índole, sua feição peculiar. O poeta ainda estava, pois, no bom terreno.
O romantismo brasileiro no seu primeiro momento foi uma prolação do espírito da velha Escola Mineira. Ao menos em parte foi assim.
Depois é que a imitação do romantismo francês, a macaqueação, o plagiato impensado do francesismo sufocou em nossa literatura o sentir nacional.
O poeta estava cheio de boas intenções; porém em literatura as boas intenções, que se não realizam, ou realizam-se mal e incompletamente, não têm valor, são como bilhetes brancos, papéis que nada valem.
É o caso de Teixeira e Sousa.
Por mais bondoso que eu queira ser nesta geral excursão pelos domínios da literatura pátria, não posso sofismar a minha impressão no estudo das obras deste escritor.
O poeta se me revelou acanhado, ermo de graças, de vida, de movimento, de seiva, de entusiasmo. Nem força e masculinidade, nem graciosidade e meiguice. Não tem quase nenhum dos sinais distintivos dos bons poetas, ou ainda dos poetas secundários, mas interessantes na sua inferioridade.
Poucas leituras conheço em qualquer literatura tão enfadonhas e tão nulamente compensadoras como a do poema Os Três Dias de Um Noivado.
O estilo é áspero, a métrica pesada e dura; o fundo um amálgama de trivialidade e de fantasmagoria de insuportável contextura. Nada mais fácil do que aduzir trechos para lançar aí diante dos olhos dos cépticos as provas absolutas do que afirmo…
É bastante indicar ao leitor toda a conversação no canto quatro do poema entre o protagonista Corimbaba e o velho Solitário que ele encontrou nas brenhas dè uma mata, e ainda mais particularmente as cenas do quinto canto, passadas entre o mesmo Corimbaba e os bruxos e entes sobrenaturais do Rochedo Encantado, onde o moço amante e recém-marido de Miriba vai inquirir do futuro. Oh! leitura displicente!… Peço dispensa de trazê-la para aqui. Prefiro mostrar o trecho que me pareceu mais agradável em todo o poema. São no 2.° canto os descantes entre os dous amantes em a noite do noivado. Corimbaba começa e Miriba lhe responde. É por esta forma:
Silvio Romero (Lagarto, 21 de abril de 1851 — 18 de junho de 1914) – História da Literatura Brasileira
Vol. III. Contribuições e estudos gerais para o exato conhecimento da literatura brasileira. Fonte: José Olympio / MEC.
TERCEIRA ÉPOCA OU PERÍODO DE TRANSFORMAÇÃO ROMÂNTICA — POESIA (1830-1870)
CAPITULO IV
TERCEIRA FASE DO ROMANTISMO: O SUBJETIVISMO DE ÁLVARES DE AZEVEDO E SUA PLÊIADA
O romantismo brasileiro não ficou estacionado em sua segunda fase, o indianismo; passou adiante e foi espreitar o que se fazia no grande mundo, no estrangeiro, para implantar novos achados, novas conquistas em nosso país.
Entretanto, parece singular que o sistema literário, que mais parecia coadunar-se ao espí-rito nacional, tenha sido justamente aquele que menos seiva revelou e menos frutos produziu. E assim foi; o india-III’ mo só contou dous grandes cultores neste país, Gonçalves Dias na poesia e José de Alencar no romance.
Os outros nossos escritores caminharam por diverso lado, e, se por acaso cultivaram de passagem o gênero, foi isso como um limitado preito prestado a tão ilustres chefes.
Magalhães, por espírito de imitação, escreveu a Con-federação dos Tamoios; Norberto Silva escreveu, em igual espírito, suas Americanas; Machado de Assis, pelo mesmo motivo, as suas; mas isto foi a exceção.
DOMINGOS José Gonçalves de Magalhães (1811-1882). — Não darei por miúdo a biografia deste escritor. Basta-me referir que nasceu no Rio de Janeiro em 1811; formou-se em Medicina em sua cidade natal, onde em 1832 publicou seu primeiro volume de poesias. Em 1833 partiu para a Europa, cujos principais países visitou, tendo por companheiros Sales Torres Homem e Araújo Porto Alegre. De volta ao Brasil em fins de 1836, ano em que publicou em Paris os celebrados Síispiros Poéticos, serviu de secretário do governo nas províncias do Maranhão e Rio Grande do Sul.
Foi deputado geral. Continuou a escrever, publicando : Antônio José ou O Poeta e a Inquisição, em 1839; Olgiato, em 1841; Amância, em 1844; Memória Histórica Documentada da Revolução do Maranhão, em 1848; a Confederação dos Tamoios, em 1856. Abraçou a carreira diplomática, representando o Brasil em diversos países da Europa e da América. Faleceu em Roma em 1882, deixando ainda publicadas outras obras.
TERCEIRA ÉPOCA OU PERÍODO DE TRANSFORMAÇÃO ROMÂNTICA — POESIA (1830-1870)
CAPITULO I
O ROMANTISMO
O momento histórico aberto agora diante dos olhos dos leitores, o romantismo, representa só por si quase toda a literatura do século XIX, e, todavia, ainda não tem sido bem apreciado. Distendido entre dous inimigos, dous rivais poderosos, tem levado golpes à direita e à esquerda. Nós os homens do último quartel do século não assistimos à sua luta com o classismo, pugna brilhante de que saiu vitorioso: presenciamos em compensação seu pelejar com o naturalismo e dez outras teorias, que o pretenderam definitivamente enterrar.
Em meados do século XIX, sob o nome de hegelianismo inglês iniciou-se em Oxford um poderoso movimento de renovação filosófica, sob o signo do idealismo. Kant e Hegel foram os seus primeiros inspiradores; a sua finalidade, uma restauração dos grandes valores espirituais contra as atitudes negativas do positivismo e do naturalismo, representados pelos nomes de St. Mill, Bain e Spencer.
196. Na reação contra o naturalismo e o empirismo materialista, R. Eucken (1846-1925) ocupa na Alemanha um lugar de alto relevo: é o fundador do neo-idealismo germânico. Discípulo de Trendelenburg em Berlim, professor de filosofia aos 25 anos em Basiléa, onde foi colega de Nietzsche, mais tarde, durante 46 anos professor em Jena, ao lado de Haeckel, K. Fischer e Pfleiderer, prêmio Nobel de literatura em 1908, Eucken adquiriu uma celebridade que ultrapassou as fronteiras da cultura germânica. Suas obras, ricas de pensamentos e nobres de forma, foram traduzidas em quase todas as línguas-inclusive o chinês e o japonês. As mais importantes: Die Einheit des Geisteslebens, 1888; Die Lebensanschauungen der grossen Denker, 1890; Der Kampf um einen geistlichen Lebensinhalt, 1896; Der Wahrheitsgehalt der Religion, 1901; Grundlinien einer neuen Lebensanschauung, 1907; Sinn und Wert des Lebens, 1908; Mensch und Welt, 1918; Lebenserinnerungen, 1920.
195. Sob o signo de Hegel começou a difundir-se o idealismo na Itália, já em meados do século XIX. O movimento político do Risorgimento que trabalhava para a unificação da península encontrou na teoria hegeliana do Estado, como totalidade e absoluto, um apoio e uma expressão e um estímulo. Vera (1813-1885), Spaventa (1817-1883), Fiorentino, na Universidade de Nápoles, e D’ercole na de Turim, atuaram como precursores. Croce e Gentile são, atualmente, os astros mais brilhantes da constelação idealista.
191. Como evolução espontânea das soluções cartesianas e kantistas do problema do conhecimento e como reação contra o materialismo e o positivismo agnóstico do século XIX, surgiu e desenvolveu–se amplamente o idealismo na filosofia contemporânea. Nas grandes nações que marcham à frente da civilização, numerosas inteligências de valor, tentaram, por vias diversas e com êxito desigual, atingir a meta inacessível de reduzir ao pensamento toda a realidade.
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